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A Descida da Alma

  • Contextualização do tema à luz do papel mediador dos grandes gêneros, conectando-o tanto à ascensão quanto à descida da alma.
  • Objetivo duplo da seção: análise do processo da descida via deuses e grandes gêneros e investigação sobre sua motivação (voluntária/involuntária, papel da *tolma*).

A. Processo da Descida

  • Discussão principal no tratado De Anima, situando Jâmblico em contraposição a Plotino, Porfírio e Amélio.
    • Rejeição da tese de que almas emanam igualmente (*epises*) da Alma Hipercósmica e entram igualmente nos corpos.
    • Afirmação da desigualdade hierárquica entre classes de almas desde sua origem: alma humana distinta da Alma do Todo, do Intelecto e dos grandes gêneros.
  • Interpretação jambliqueana do mito da criação do Timeu e do conceito de *primeira geração* (*prote genesis*).
    • A *primeira geração* é identificada não com a *primeira hipóstase* (*prote hypostasis*) da alma, mas com a *sementeira* (*spora*) das almas em seus veículos ao redor dos deuses cósmicos.
    • Distinção crucial entre *primeira hipóstase* (vida hipercósmica da alma racional) e *sementeira* (estabelecimento encósmico da alma com seu veículo na circulação de um deus líder).
  • Papel e significado da *sementeira demiúrgica* (*demiourgike spora*).
    • Sementeira como ato que garante a cada alma um deus líder (*hegemon theos*) como salvador e patrono, fundamentando a teoria da influência astrológica.
    • A sementeira ocorre ao redor de todos os grandes gêneros, por todo o céu e em todos os elementos (*stoicheia*), incluindo entidades sublunares.
    • Implantação da alma humana na *lêxis* celestial apropriada, ponto de partida para possível ascensão ou queda.
  • Integração dos grandes gêneros no esquema da descida conforme o Timeu.
    • A sementeira também inclui almas de grandes gêneros (anjos, demônios, heróis), formando o séquito de cada deus cósmico.
    • Posição hierárquica da alma humana, abaixo das almas dos grandes gêneros, mas conectada a eles para auxílio na reascensão.
  • Relação e distinção entre *distribuição* (*nomê*), *sementeira* (*spora*) e *descida* (*kathodos*).
    • *Distribuição*: ato anterior e incorpóreo, pelo qual o Demiurgo aloca almas às estrelas (ou almas dos deuses estelares).
    • *Sementeira*: ato corpóreo posterior, que estabelece o veículo da alma na circulação do veículo do deus líder.
    • *Descida*: movimento subsequente da alma a partir de sua *lêxis* celestial para o contato com a geração e a matéria.
    • Sequência neoplatônica padrão: existência (*hypostasis*), distribuição, montagem no veículo, descida.
  • Discussão das fontes e divergências com Proclo.
    • Proclo, seguindo Siriano, propõe três sementeiras, enquanto Jâmblico enfatiza a dupla função da sementeira única (ao redor dos deuses e ao redor da geração).
    • Desacordo sobre a interpretação de *primeira geração* e sobre a geração do veículo (Proclo defende dois veículos, Jâmblico apenas um, etéreo e imortal).
    • Contudo, acordo substancial sobre o papel de conexão da sementeira: une a alma humana à alma divina e o veículo humano ao veículo divino.
  • Concepção final de Jâmblico sobre os estágios da vida da alma.
    • *Primeira hipóstase*: vida racional hipercósmica.
    • *Sementeira demiúrgica*: vida da alma com seu veículo no reino cósmico, sob um deus líder.
    • *Descida*: vida da alma encarnada no corpo material.
    • Ênfase na mediação contínua dos grandes gêneros e na determinação hierárquica das posições a partir da *processão* (*proodos*) da cratera.

B. Motivações para a Descida da Alma

  • Apresentação do dilema filosófico herdado de Platão.
    • Tensão entre a narrativa do Fedro (queda por falha da alma, envolvendo *tolma*) e a do Timeu (descida necessária para completude do universo).
  • Análise das soluções precedentes, notadamente de Plotino.
    • Evolução do pensamento plotiniano, oscilando entre involuntário, voluntário e *tolma*, e sua tentativa final de isentar a fase superior da alma.
    • Dificuldades residuais: a associação da fase discursiva com a imagem ainda implica falha.
  • Posição de Jâmblico: rejeição da *tolma* como causa da descida.
    • Crítica à noção de que a descida origina-se de ato audacioso ou pecaminoso da alma.
    • Harmonização das narrativas do Fedro e do Timeu sob o princípio da *necessidade* cósmica ou divina.
  • Exegese de passagens do De Anima sobre as causas da descida.
    • Primeira distinção: entre filósofos que atribuem a causa ao estado anterior da alma (Plotino, Empédocles, Heráclito, Gnósticos, Albino) e os que acrescentam causas externas (Numênio, Crônio, Harpocração, Plotino, Porfírio).
    • Segunda distinção: entre visões que enfatizam a necessidade cósmica (Heráclito) e as que enfatizam o envio divino (Tauro).
    • Terceira distinção: entre descidas voluntárias (alma que escolhe administração ou obedece) e involuntárias (alma arrastada à força).
  • Doutrina jambliqueana das três modalidades de descida, baseadas em seus *fins* (*tele*) distintos.
    • Descida *pura* (*akrantos*): para preservação, purificação e perfeição das coisas terrenas. Própria de almas puras que demonstram a vida divina.
    • Descida para *exercício* e *correção* do caráter: modalidade intermediária, nem totalmente impassível, nem independente.
    • Descida para *punição* e *julgamento*: involuntária, própria de almas impuras arrastadas à força.
    • Rejeição da visão (de Crônio, Numênio, Harpocração) de que toda encarnação é má.
  • Explicação para a *primeira descida* com base no mito do Fedro.
    • A causa inicial não é *tolma*, mas a capacidade desigual das almas em seguir seu deus líder e vislumbrar o ser verdadeiro (*to ontos on*) no reino noético.
    • Almas *recém-iniciadas* (*neoteleis*), *companheiras dos deuses* (*theon synodoi*) e *perfeitas* descem sem paixões. Almas cheias de desejos descem com paixões.
    • A *igualdade* inicial garantida pela sementeira (Timeu) coexiste com a *diferença* de desempenho no séquito celeste (Fedro).
  • Razões filosóficas e religiosas para a rejeição da *tolma*.
    • Necessidade de coerência entre os diálogos platônicos.
    • Pureza inicial de todas as almas na existência pré-encarnada.
    • Descida também dos grandes gêneros, cuja natureza quase divina exclui pecado voluntário.
    • Primado da teurgia sobre a contemplação: a alma não se salva por si, mas pela ajuda divina; portanto, não cai por sua própria vontade soberana.
  • Síntese da solução jambliqueana.
    • Descida é necessária por lei cósmica (Timeu), mas as almas a vivenciam de modos diferentes conforme seu estado prévio (Fedro).
    • O veículo, sendo etéreo e semelhante ao divino, não é causa da dificuldade; esta reside na alma irracional.
    • O sistema garante a contínua dependência da alma humana dos deuses e grandes gêneros, tanto na descida quanto na reascensão, fundamentando a prática teúrgica.
    • A reinterpretação de Jâmblico representa uma guinada religiosa no neoplatonismo, vinculando indissoluvelmente filosofia, hierarquia metafísica e ritual.
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