Princípios
Guillermo Fraile, História da Filosofia
1. Os princípios. — A ideia fundamental do pensamento de Proclo é que o imperfeito deriva do perfeito. Daí a necessidade de estabelecer um primeiro princípio de unidade (mônada), não apenas no início do desenvolvimento geral da procissão dos seres, mas também à frente de cada uma das séries derivadas. Se não há unidade, não pode haver pluralidade. Se não há bondade, não pode haver coisas boas. E da mesma forma, se não há Vida, Inteligência e Alma, não pode haver muitas vidas, nem muitas inteligências, nem muitas almas.
Assim, no início de cada série de emanação deve haver um princípio transcendente, do qual participam todas as coisas que dele derivam, embora sem dividir sua unidade (Ser, Vida, Inteligência). Na realidade desse princípio participável baseia-se a realidade do participante (o ser, o vivo, o inteligente). E baseia-se também a realidade dos participantes, que é a multidão de coisas em que se multiplica um mesmo princípio comum (os seres, os vivos, as inteligências, as almas, etc.).
Cada princípio das séries é a causa geral de todas as realidades que dele derivam. E esse princípio é tanto mais elevado quanto mais simples e mais geral for. Proclo procede aplicando um método lógico, baseado na extensão dos conceitos, calcado na constituição da árvore de Porfírio. O primeiro é o Um, depois o Ser, a Vida, a Inteligência, a Alma e, em seguida, as longas séries de entidades particulares do mundo ideal e do sensível.
A constituição dos seres particulares se realiza em virtude do ternário: infinito (apeiria), que é a potência; finito, ou limite (peras), que é o ato, do qual resulta o misto (mikton, peperasmenon), que é o ser finito, ou ente verdadeiro. Dessa forma, a potência infinita e indeterminada é determinada e limitada por um ato, resultando na constituição de um ser particular e individual. Assim, da Mônada derivam as Enadas, que já têm composição e multiplicidade. Das Enadas resultam as Tríades (por exemplo, Ser, Vida, Entendimento). E das Tríades se originam as Hebdomadas. Tudo isso é ainda mais complicado por Proclo ao identificar essas realidades que resultam de seu processo descendente com os inúmeros deuses da mitologia pagã e oriental.
A dialética do desenvolvimento emanativo é regida por um ritmo triádico: 1.º Um princípio superior, inicial de cada série, que permanece imutável, sem perder nada de sua substância ou perfeição. O causado está em sua causa. 2. A procissão emanativa (proodos) dos seres que procedem de seu princípio. O causado sai de sua causa. 3. O retorno, ou a conversão (epistrophe), de cada uma das coisas particulares ao seu princípio. O causado retorna à causa. 5. Desta forma, realiza-se a procissão, descendo de grau em grau, e do mais perfeito para o mais imperfeito, no sentido inverso ao da evolução de Hegel e Darwin. É a aplicação da regra de Plotino: “É necessário que os primeiros princípios sejam ativos e perfeitos”.
Toda procissão requer um intermediário, que é quem torna possível a transição de um extremo ao outro. Dessa forma, a Unidade do princípio primeiro pode chegar à multiplicidade. E, inversamente, a existência de intermediários torna possível o retorno das almas ao seu princípio primeiro.
Em todos os graus da procissão, o que há de mais elevado em cada série inferior toca o que há de mais ínfimo na superior. Assim se estabelece uma concatenação rigorosa de seres, partindo dos mais elevados até os mais ínfimos, e inversamente.
Dessa forma, o desenvolvimento do sistema de Proclo se reduz a um movimento contínuo de descida e ascensão, no qual os seres particulares primeiro procedem e depois retornam aos seus respectivos princípios, passando primeiro da unidade à multiplicidade e depois voltando da multiplicidade à unidade.
