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I-11

Resumo de Saffrey e Westerink

Capítulo 11. Interpretação da sua segunda hipótese segundo Syrianus.

Se afirmarmos que as conclusões da segunda hipótese se referem ao ser real, como esse ser também é múltiplo e como não há maneira de fazer com que cada uma das conclusões se aplique ao todo do ser, nem de aplicá-las todas a cada uma de suas partes, é necessário que haja uma correspondência entre cada uma das conclusões e as classes do ser (p. 47.1 -48.15).

Mas é contrário ao método dialético supor que a ordem das conclusões é arbitrária, e a única ordem possível é a da enumeração dos graus naturais do ser, de cima para baixo. Esse resultado é confirmado pela ordem das hipóteses e pela necessidade de que o último termo de uma hipótese esteja em continuidade natural com o primeiro termo da hipótese seguinte. Ora, a primeira hipótese trata do Um, a terceira da alma, portanto, o primeiro termo da segunda hipótese deve ser o um-que-é (em continuidade com o Um) e o último, o grau do ser que participa do tempo (em continuidade com a alma) (p. 48.16-50.12).

Essa é também a opinião dos bons exegetas de Platão. Plotino admite a superioridade do ser primordial sobre os números que são produzidos por ele. Porfírio reconhece no intelecto um elemento superior ao eterno. Jâmblico, finalmente, colocou os gêneros do ser no limite inferior da ordem intelectiva. Em cada um desses casos, apenas se precisa a posição das diversas conclusões do Parmênides em relação a essas diversas ordens divinas, o que equivale a fazer corresponder as duas hierarquias, a dos deuses e a das conclusões (p. 50.13-52.19).

Além disso, fora da solução de Siriano, haveria muitas questões sem resposta: 1° por que as conclusões são duas vezes sete?; 2° qual é a causa de sua ordem relativa?; 3° como elas se deduzem umas das outras?; 4° por que algumas se derivam de duas anteriores, outras de uma única? ; 5° de duas coisas, ou as conclusões têm apenas um valor lógico, e voltamos à exegese que faz do Parmênides um exercício de lógica, ou elas têm um valor demonstrativo, e então as realidades visadas por essas demonstrações também devem se encadear como as próprias demonstrações; 6° por que o Um se separa do ser na quarta conclusão? ; 7° finalmente, como explicar a extensão crescente dos raciocínios e a extensão da segunda hipótese? (p. 52.20-55.9).


Resumo da tradução de Thomas Taylor

  • Reanálise dialética da segunda hipótese para expor inconsistências da interpretação simplificada
  • Premissas concedidas para o debate
    • Conclusões da segunda hipótese são sobre o ser verdadeiro (alethos on)
    • Este ser é multidão (plethos), não apenas Um, mas participado do Um (pathos tou henos), conforme o Hóspede Eleata no Sofista
    • Reconhecimento oponente: o primeiro é o Um, o intelecto é Um-muitos, a alma é Um e muitos, o corpo é muitos e um
  • Dilema sobre a atribuição das conclusões ao ser
    • Questão: estas conclusões harmonizam com o todo do ser, não com suas partes, ou com ambos?
    • Segunda questão: atribuem-se todas as coisas a cada parte do ser, ou coisas diferentes a partes diferentes?
    • Análise das alternativas:
      • Se cada particular harmoniza apenas com o todo do ser, o ser consistirá de não-seres, o movido de imóveis, etc. (violação do princípio de não-contradição)
      • Conflito com o discurso de Parmênides, que diz que partes do ser caracterizado pelo Um são de certa forma todos (hola), cada uma sendo um e ser de modo similar ao todo
      • Se atribuímos todas as coisas a cada parte, não fazemos distinção entre partes, e o cume do ser conteria uma totalidade e multidão incompreensível de partes simultaneamente, incluindo todo número, figura, movimento, permanência, formas e gêneros (impossível, pois estes diferem entre si)
      • Consequência absurda: coisas próximas e remotas do Um igualmente multiplicadas, primeiro e último sem diferença de multiplicidade, meio sem diferença de divisão em relação aos extremos
  • Necessidade lógica de distribuição diferenciada das conclusões
    • Não é próprio atribuir toda a multidão de conclusões apenas ao todo, nem considerar todas as coisas similarmente em todas as partes do ser
    • Resta que conclusões diferentes devem harmonizar com coisas diferentes
    • Necessidade de que a enumeração das conclusões seja ordenada (taxis) ou desordenada (ataxia)
      • Se desordenada: discorda do método dialético, do modo das demonstrações (que geram secundários a partir de primeiros) e da ciência de Platão (que sempre acompanha a ordem das coisas)
      • Se ordenada: ou começam das coisas primeiras segundo a natureza, ou das últimas
        • Se começam das últimas: o ser caracterizado pelo Um seria o último, o movido no tempo o primeiro (impossível, pois o que participa do tempo deve participar prioritariamente do primeiro ser; o primeiro ser está acima do tempo)
        • Logo, Platão começa do primeiro ser e termina no que participa do tempo, procedendo das primeiras às últimas partes do ser verdadeiro
    • Consequência: primeiras conclusões referidas às primeiras ordens, médias às médias, últimas às últimas
  • Argumento da ordem das hipóteses como evidência
    • Primeira ordem: Um isento de toda multidão
    • Segunda ordem: sobre os seres verdadeiros e a unidade que participam
    • Terceira ordem: sobre a alma
    • Sírio demonstrou que o discurso sobre almas totais está compreendido na segunda hipótese
    • Se a ordem das três hipóteses procede segundo a natureza das coisas, a segunda é produzida da primeira, a última da segunda
    • Pergunta retórica: o que pode ser mais aliado ao Um que o ser caracterizado pelo Um (desdobrado na primeira conclusão da segunda hipótese)? O que mais aliado à alma que o que participa do tempo, subsiste divisivelmente e é a última coisa exibida nesta hipótese?
    • Vida das almas (parciais e totais) é segundo o tempo; primeiro ser é o que primeiro participa do Um
    • Se esta hipótese é o meio, harmonizamos conclusões mais altas com coisas mais altas, médias com médias
  • Testemunho dos intérpretes platônicos antigos
    • Plotino (Sobre os Números): primeiro ser subsiste antes dos números, gera o número divino; causa e causado não podem ter mesma potência ou ordem; ciência sobre eles é distinta
    • Porfírio (Sobre os Princípios): intelecto é eterno, mas contém em si algo anterior ao eterno, pelo qual se conjunta ao Um; algo melhor que o eterno não pode conter todas as conclusões (pois movimento intelectual e permanência estão na eternidade); logo, algumas conclusões se aplicam a ele, outras não, indicando ordens diferentes no intelecto
    • Jamblico (Sobre os Deuses): acusa os que colocam os gêneros do ser nos inteligíveis, pois seu número e variedade estão mais remotos do Um; os gêneros do ser são produzidos no fim da ordem intelectual pelos Deuses que ali subsistem
    • Conclusão: segundo os melhores intérpretes, a multidão das ordens divinas e dos argumentos platônicos procede segundo distinção ordenada
  • Problemas insolúveis na interpretação simplificada
    • Primeiro: por que há exatamente catorze conclusões? Razão não pode ser atribuída sem distribuição conjunta com as coisas mesmas
    • Segundo: causa da ordem das conclusões entre si, prioridade e posterioridade, não pode ser encontrada sem que a ordem das conclusões proceda em conjunção com a progressão dos seres
    • Terceiro: por que algumas conclusões se tornam conhecidas de coisas proximamente demonstradas, outras de demonstrações precedentes? Exemplo: “Um é todo e contém partes” demonstrado do ser caracterizado pelo Um; “subsistência em si e em outro” colocada após posse de figura, demonstrada de todo e partes
    • Quarto: por que algumas coisas demonstradas de dois particulares previamente evidenciados, outras de um? Ignorância destes pontos sem seguir as coisas mesmas
  • Dilema sobre o caráter das conclusões
    • Se apenas silogísticas: diferença dos que afirmam ser discussão dóxastica e mero combate verbal?
    • Se também demonstrativas: o meio (meson) deve ser causa e por natureza anterior à conclusão
    • Consequência: as coisas que os argumentos respeitam devem ter ordem similar quanto ao ser, e sua progênie deve ser causa das coisas sujeitas e gerativa das secundárias
    • Admissão disso: como permitir que todas tenham mesma peculiaridade e natureza? Causa e causado são separados
  • Dificuldade específica sobre a separação do Um
    • Nos três primeiras conclusões, o Um permanece inseparado do ser; primeira separação na quarta conclusão; nas seguintes, o Um é explorado subsistindo por si mesmo
    • Necessidade de que estas ordens difiram entre si: o inseparado tem subsistência oculta e indivisa, mais aliado ao Um; o separado procedeu mais longe do primeiro princípio
  • Argumento da extensão e complexidade da hipótese
    • Raciocínios sobre assuntos divinos contraídos nas causas mais principais (oculto mais abundante que perspícuo, inefável mais que conhecido)
    • Multiplicam-se e evoluem ao proceder a ordens divinas mais próximas de nossa natureza
    • Coisas mais aliadas ao inefável, desconhecido e isento têm hyparxis mais estranha à enunciação verbal
    • Coisas que procederam mais longe são mais conhecidas e aparentes à fantasia
    • Conclusão: segunda hipótese deve desdobrar todas as ordens divinas, procedendo do mais simples e unificai a toda multidão e número de naturezas divinas
  • Consequência hermenêutica final
    • Continuidade da ordem divina e progressão de naturezas segundas a partir de primeiras assumida desta hipótese
    • Comunhão e distinção medida dos gêneros divinos, auxiliares em outros diálogos sobre verdade dos seres ou unidades que contêm, todos referidos a esta hipótese
    • Contemplação das progressões totais dos Deuses e ordens todo-perfeitas segundo ciência teológica
  • Visão sintética do Parmênides
    • Tratado inteiro refere-se à verdade das coisas, não evolução vã de palavras
    • Nove hipóteses empregam método dialético, mas especulam com ciência divina sobre coisas e naturezas médias ou últimas
    • Discurso de Parmênides sobre o Um e como subsiste em relação a si e a todas as outras coisas
    • Especulação do Um deve começar do mais alto, terminar no último de todas as coisas
    • Hyparxis do Um procede do alto até a hipóstase mais obscura das coisas

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