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I-18
Resumo de Saffrey e Westerink
Capítulo 18. Altributos divinos da República. 1.
Os deuses, causa de todo o bem e de nenhum mal.
Uma vez que o Bem absoluto é deus, e uma vez que cada deus possui e produz o bem em primeiro lugar, resulta que os deuses são a causa de todos os bens. Assim como para a vida, o conhecimento e a beleza, o princípio existencial do bem é a causa de todo o bem: nada é bom sem ele, nada causa o bem a não ser pela participação em sua causalidade (p. 82.8-83.11).
Pela mesma razão, os deuses não são causa de nenhum mal, são alguns dos beneficiários do bem, seres inferiores e particulares, que não são capazes de mantê-lo puro de seu oposto, o mal. E mesmo este último nunca pode existir em estado puro e sem se misturar com o bem, razão pela qual o mal parcial contribui para a perfeição do universo (p. 83.12-85.5).
Essa pseudo-existência do mal não afeta os intelectos particulares, nem mancha a essência das almas particulares, mas se introduz em suas operações que se desenrolam no tempo; quanto aos corpos, eles estão inteiramente entregues à variação e à corrupção do mal (p. 85.6-86.9).
O mal tem, portanto, apenas uma pseudo-existência; assim como o Bem está além do que existe, o mal está abaixo do que não existe. Mas ele é constantemente corrigido pela Justiça, que cura as almas e os corpos. Compreende-se também por que a medida do bem recebido por cada um não é outra senão a capacidade daquele que o recebe (p. 86.10-87.21).
É por isso que devemos rejeitar as explicações gnósticas do mal por razões primordiais, arquétipos, almas maléficas e, sobretudo, um deus mau. Nada está mais distante do pensamento de Platão (p. 87.22-88.10).
Resumo da tradução de Thomas Taylor
- Transição para investigação da imutabilidade (atrepsia) e simplicidade (haplotes) dos Deuses segundo a narração de Platão
- Premissa: Deuses isentos (exeiremenoi) de todas as coisas, mas preenchendo-as com bem, são perfeitamente bons; cada um segundo ordem própria possui o mais excelente (to ariston); gênero todo dos Deuses alocado predominância segundo exuberância do bem
- Refutação da interpretação divisível do “mais excelente” nos Deuses
- Objeção: se primeira causa é mais excelente, posterior não o é; produzido inferior ao produtor
- Resposta: correta preservação da ordem de causas não confusa, definição separada de progressões segundas e terceiras
- Porém: junto com progressão e desdobramento de secundários a partir de primeiros, o mais excelente deve ser examinado em cada Deus
- Cada Deus em peculiaridade característica própria alçado transcendência primária e perfeitamente boa
- Exemplos: um com poder profético, outro demiúrgico, outro como perfeccionador de obras
- Evidência platônica da excelência em cada ordem
- Timeu: chama primeiro demiurgo de melhor das causas (beltistos ton aition); mundo mais belo das naturezas geradas, artífice melhor das causas (embora paradigma inteligível, mais belo dos inteligíveis, anterior ao demiurgo)
- República: Sócrates diz cada Deus, tanto quanto possível mais belo e excelente, permanece sempre com simplicidade de subsistência em forma própria
- Cada Deus alçado o primeiro e cume em sua série, não parte de ordem própria, contém bem-aventurança e felicidade de potência própria
- Imutabilidade como consequência da posse do mais excelente
- Não troca ordem presente por pior (não lícito ao que possui toda virtude mudar a pior)
- Não passa a ordem melhor (onde haveria melhor que o mais excelente?)
- Mais excelente presente em cada divindade segundo ordem própria, e em todo gênero dos Deuses
- Conclusão: toda natureza divina estabelecida imutavelmente, permanecendo de maneira costumeira
- Triade de atributos decorrentes: autossuficiência (autarkeia), pureza indefectível (akratos katharotes), identidade invariável de subsistência (tautotes tes hyparxeos)
- Se não mudam a condição mais excelente (possuindo o melhor em natureza), suficientes a si, não carecem de bem
- Se nunca mudam a pior, permanecem indefectíveis, estabelecidos em transcendências próprias
- Se guardam perfeição imutavelmente, subsistem sempre com invariável identidade
- Análise comparativa da autossuficiência em diferentes níveis
- Mundo: autossuficiente porque subsistência perfeita de coisas perfeitas, todo de todos, preenchido de bens apropriados do pai gerador; perfeição e autossuficiência partíveis, consistem de muitas coisas coalescendo em uma, preenchidas de causas separadas segundo participação
- Ordem das almas divinas: autossuficiente como cheia de virtudes apropriadas, sempre preservando medida de bem-aventurança sem indulgência; mas carece de potências; intuições não dirigidas aos mesmos inteligíveis; energizam no tempo, obtêm perfeição completa da contemplação em períodos inteiros de tempo; autossuficiência não presente de uma vez
- Mundo intelectual: autossuficiente como tendo todo bem estabelecido na eternidade, compreendendo de uma vez toda bem-aventurança, indigente de nada; vida e inteligência presentes; suficiente a si em ordem, mas falha da autossuficiência dos Deuses
- Autossuficiência própria dos Deuses
- Todo intelecto é boniforme, mas não bondade mesma, nem primariamente bom
- Cada Deus é uma unidade, hyparxis e bondade; peculiaridade da hyparxis muda progressão da bondade de cada (bondade perfeccionadora, conectiva de todas as coisas, coletiva)
- Cada é simplesmente bondade suficiente a si; ou bondade possuindo o autossuficiente e o todo-perfeito, não segundo participação ou iluminação, mas sendo exatamente aquilo que é
- Intelecto suficiente a si por participação, alma por iluminação, universo por similitude a natureza divina; Deuses autossuficientes por e através de si mesmos, preenchendo a si, ou antes subsistindo como plenitudes de todo bem
- Análise comparativa da imutabilidade
- Imutabilidade de corpo circulante naturalmente: não adaptado a receber de naturezas inferiores, não preenchido com mutação de geração e desordem sublunar; natureza dos corpos celestes imaterial e imutável; grande e venerável em hipóstases corpóreas, mas inferior à natureza dos Deuses; corpo possui ser e imutabilidade perpétua de causas precedentes
- Imutabilidade das almas: comunicam em certo respeito com corpos, são mídias de essência impartível e de essência dividida ao redor de corpos; não equivalente à dos Deuses
- Imutabilidade de essências intelectuais: imutável, impassível, não misturada com naturezas secundárias por união com Deuses; enquanto uniforme, é assim; enquanto múltipla, tem algo mais excelente e subordinado em si
- Imutabilidade dos Deuses: estabelecem uniões segundo transcendência dos seres; são dominações imutáveis, primárias e impassíveis; nada neles que não seja um e hyparxis
- Analogias da atividade divina impolutável
- Fogo abole tudo estranho e de potência contrária
- Luz expulsa toda escuridão
- Relâmpago procede por todas as coisas sem defileção
- Assim unidades dos Deuses unem todas as multidões, abolem tudo que tende à dispersão e divisão todo-perfeita; deificam tudo que participa deles, nada recebem dos participantes, não diminuem união própria pela participação
- Conclusão: Deuses presentes em toda parte, similarmente isentos de todas as coisas, contendo todas as coisas, vencidos por nenhuma, não misturados com todas as coisas e indefectíveis
- Análise comparativa da identidade invariável de subsistência (tautotes tes hyparxeos)
- Mundo: subsiste com identidade invariável enquanto alçado ordem em si sempre indissolúvel; mas por possuir forma corpórea, não destituído de mutação (Hóspede Eleata)
- Ordem psíquica: essência sempre estabelecida em identidade; inteiramente impassível segundo essência; energias estendidas no tempo; em diferentes tempos entende diferentes inteligíveis, em progressões sobre intelecto contacta formas diferentes (Fedro)
- Intelecto: subsiste e entende com invariável e perpétua identidade, estabelecendo de uma vez na eternidade essência, potências e energias; por multidão de intuições e variedade de espécies e gêneros inteligíveis, há não só identidade invariável, mas diferença de subsistência em intelecto; diferença consubsistente com identidade; há perambulação de movimentos corpóreos, períodos psíquicos, e do próprio intelecto enquanto produz inteligência de si em multidão, desdobra o inteligível (Plotino)
- Identidade perpétua primariamente apenas nos Deuses, especialmente inerente a eles; acordo com Platão (Político): eterna invariável identidade de subsistência só pertence ao mais divino de todas as coisas
- Síntese da imutabilidade divina
- Deuses ligam a si causas de identidade deste tipo, guardam com invariável identidade hyparxis própria estabelecida segundo união desconhecida de si mesmos
- Imutabilidade dos Deuses contida em autossuficiência, impassividade e identidade
