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I-4
Resumo de Saffrey e Westerink
Capítulo 4. Os modos de exposição teológica adotados por Platão.
Agora vamos enumerar e estudar os modos escolhidos por Platão para expor a teologia. São quatro: o modo divinamente inspirado, o modo dialético, o modo simbólico e o modo que procede a partir de imagens (p. 17.9-24).
No Fedro, é de maneira divinamente inspirada que Platão fala dos deuses intelectuais, dos deuses separados do mundo e dos deuses encosmicos. No Sofista e no Parmênides, de maneira dialética, ele estuda o Um além do ser e a procissão dos seres. No Gorgias, no Banquete e no Protágoras, de maneira simbólica, ele relata os mitos sobre os deuses criadores, o amor e a vida mortal. No Timeu, na Política, etc., por meio de imagens, ou seja, representações da realidade em termos matemáticos, morais ou físicos, ele ensina as procissões, as hierarquias, as operações dos princípios divinos (p. 17.25-19.22).
Existem apenas esses quatro modos de exposição teológica. Pois só se pode falar dos princípios divinos por alusões (de forma simbólica ou a partir de imagens) ou diretamente (de forma dialética ou divinamente inspirada). O simbolismo mitológico vem da tradição órfica, a instrução por meio de imagens, do pitagorismo, a revelação sob inspiração divina, dos Oráculos caldeus, mas o método científico em teologia é propriamente platônico (p. 19.23 - 20.25).
Observemos, de passagem, que Platão eliminou dos mitos as composições dramáticas e nos recomendou, em A República II, modelos teológicos precisos. Por outro lado, em Fedro, ele nos proibiu a interpretação física dos mitos (p. 21.1-23.11).
Resumo da tradução de Thomas Taylor
- Necessidade de expor os modos segundo os quais Platão ensina concepções místicas das naturezas divinas após a compreensão da primeira teoria
- Pluralidade metodológica de Platão: não persegue o mesmo modo de doutrina em toda parte, mas varia conforme o propósito
- Enumeração e descrição dos quatro modos de exposição teológica empregados por Platão
- Modo entusiástico ou de energia deífica
- Exemplo no Fedro: inspirado pelas Ninfas, trocando inteligência humana pela possessão superior da mania (fúria)
- Desdobramento de dogmas arcanos sobre os Theoi (Deuses) intelectivos e governantes libertos do universo com boca divina
- Celebração dos Theoi (Deuses) alocados no mundo: suas intelecções, fabricações mundanas, providência impoluta e governo das almas
- Atribuição explícita desta fúria às divindades do lugar, caracterizando o discurso como entusiástico
- Modo dialético
- Exemplo no Sofista: disputa dialética sobre o ser e a hipóstase separada do Um a partir dos seres
- Demonstração de como todos os seres estão suspensos de sua causa e do primeiro ser, mas que o próprio ser participa da unidade isenta da totalidade das coisas
- Caracterização do ser como um uno passivo, sujeito e unido ao Um, mas não sendo o Um primariamente
- Exemplo no Parmênides: desdobramento dialético das progressões do ser a partir do Um e da transcendência do Um através das primeiras hipóteses
- Afirmação platônica da divisão mais perfeita deste método no diálogo
- Modo simbólico ou mítico
- Exemplo no Górgias: fábula sobre os três demiurgos e seus lotes demiúrgicos, caracterizada como narração verdadeira, não apenas fábula
- Exemplo no Banquete: discurso sobre a união de Eros (Amor)
- Exemplo no Protágoras: distribuição dos animais mortais a partir dos Deuses
- Característica: ocultação da verdade sobre naturezas divinas sob véu simbólico, desdobramento da mente apenas até indicação para os ouvintes mais genuínos
- Modo através de imagens (incluindo disciplinas matemáticas)
- Exemplo nos diálogos que utilizam disciplinas matemáticas, discursos éticos ou físicos para tratar de assuntos divinos
- Ocorrências múltiplas no Timeu, no Político e dispersas em outros diálogos
- Método aparente para quem deseja conhecer assuntos divinos através de imagens
- Função: sombrear as potências das coisas divinas
- Exemplos concretos:
- Político: sombreia a fabricação nos céus
- Figuras dos cinco elementos em proporções geométricas no Timeu: representam imageticamente as peculiaridades dos Theoi (Deuses) que cavalgam nas partes do universo
- Divisões da essência psíquica no mesmo diálogo: sombream as ordens totais dos Theoi (Deuses)
- Composição de políticas assimilando-as a naturezas divinas e ao mundo todo, adornando-as das potências que contém
- Princípio geral: similitude entre assuntos mortais e divinos para exibir em imagens progressões, ordens e fabricações das naturezas divinas
- Necessidade lógica do número quádruplo dos modos teológicos
- Divisão primária: os que tratam de assuntos divinos de modo indicativo vs. os que anunciam abertamente suas concepções
- Subdivisão do modo indicativo:
- Através de símbolos e fábulas
- Através de imagens
- Subdivisão do modo aberto:
- Segundo ciência (episteme)
- Segundo inspiração (entheasterion) dos Deuses
- Correspondência com tradições pré-platônicas:
- Modo simbólico: característica órfica e dos que escrevem fábulas sobre os Deuses
- Modo através de imagens: característica pitagórica
- Finalidade das disciplinas matemáticas pitagóricas: reminiscência (anamnesis) de assuntos divinos
- Referência de números e figuras aos Deuses, conforme testemunho historiográfico
- Modo entusiástico: característica dos mais altos iniciadores (teletarchai)
- Não desdobram as ordens divinas através de véus, mas anunciam poderes e números movidos pelos próprios Deuses
- Modo científico: prerrogativa ilustre da filosofia de Platão
- Inovação platônica: tentativa metódica de dividir e ordenar a progressão regular dos gêneros divinos, diferenças mútuas, peculiaridades comuns das ordens totais e peculiares distribuídas em cada
- Posição crítica de Platão em relação aos mitos e à mitologia tradicional
- Rejeição das figuras fabulosas da composição dramática antiga, exceto as referentes ao belo e ao bom e não discordantes da essência divina
- Reconhecimento da antiguidade do modo mitológico indicativo, que oculta a verdade sob véus e procede similarmente à natureza
- Natureza estende fragmentos sensíveis de inteligíveis, materiais de imateriais, partíveis de impartíveis, imagens e seres falsos de seres perfeitamente verdadeiros
- Reprovação específica do modo mais trágico dos poetas antigos
- Estabelecimento de teologia arcana através de símbolos como errâncias, seções, batalhas, lacerções, raptos e adultérios dos Deuses
- Julgamento platônico: este modo é estranho em todos os aspectos à erudição (paideia)
- Preferência por discursos mitológicos mais persuasivos e adaptados à verdade e ao hábito filosófico
- Princípios: natureza divina causa de todo bem e de nenhum mal, isenta de mutação, guardando sua ordem imutável, contendo a fonte da verdade e nunca causa de engano
- Fonte: tipos de teologia entregues por Sócrates na República
- Característica das fábulas platônicas: guardar a verdade em ocultação, com aparência externa não discordante da antecipação indisciplinada e não pervertida sobre os Deuses
- Trazem imagem da composição mundana, onde a beleza aparente é digna da divindade e uma beleza mais divina se estabelece nas vidas e potências inaparentes dos Deuses
- Segundo modo mitológico platônico (exposto no Fedro): preservação da pureza do discurso teológico
- Preservação das fábulas teológicas não misturadas com narrações físicas
- Cuidado de não confundir ou trocar entre si a teologia e a teoria física
- Princípio: como a essência divina é separada da totalidade da natureza, os discursos sobre os Deuses devem ser puros de indagações físicas
- Crítica à mistura: laboriosa e própria de homem não muito bom
- Exemplo condenado: igualar, através de pretensa sabedoria, Quimera, Górgona e similares a figuras físicas
- Exemplo de reprovação no Fedro: interpretação física do mito de Oritia e Bóreas como mero rapto por amor, esvaziando seu sentido
- Princípio hermenêutico platônico para fábulas sobre Deuses: significado oculto sempre mais venerável que o aparente
- Consequência para interpretação: hipóteses físicas e sublunares aplicadas a fábulas platônicas desviam-se inteiramente da intenção do filósofo
- Intérpretes corretos da verdade nas fábulas: hipóteses que têm como escopo uma hipóstase divina, imaterial e separada, adaptando composições e análises das fábulas às antecipações inerentes sobre assuntos divinos
