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Mirabilis perspicacia

Retrato do Intelectual Humanista: Retiro, Interioridade e Confronto com o Inefável

Mundo é incerto por ser lábil, e intelecto odeia movimento e fragilidade. Tendência natural do intelecto: retornar à sua esfera, o Empíreo imóvel, analogamente a todas essências do mundo. Movimento de retiro característico da mentalidade humanista: retiro no estudo, na paz, no campo ideal, regido por leis precisas.

Superação da visão dantesca e problema da opacidade do sensível.

  • Obstáculo do sensível: opacidade, incompatível com natureza visual do intelecto.
  • Causa da opacidade: coexistência do corruptível e incorruptível nas formas físicas.
  • “Velo di grandissima ambiguità”: véu de grande ambiguidade que habitua inteligência a viver em espaço onde realidades espirituais irrepresentáveis escondem-se por trás de objetos.
  • Confusão do visível e invisível: é primeiro sinal e primeiro perigo do despertar intelectual, pois negar invisível é renunciar à inteligência.
  • Gênio de Alberti: localiza topo da pirâmide visual no olho ideal do espírito. Realidades inteligíveis estão “antes” dos objetos sensíveis, não “atrás” ou “acima”.
  • Exemplo de Brunelleschi: em painel urbano, vira as costas à Piazza della Signoria para contemplar efeito de seu quadro a contrassenso do olhar natural, através de buraco no verso da pintura refletida em espelho.

Busca da verdade no interior do sujeito: o “espelho da alma”.

  • Foco da realidade interior: esforço filosófico de deciframento concentra-se no espelho da alma, cujo reflexo é mais real que corpos, mas menos real que Deus.
  • Ponto decisivo: espírito humano inicia fechamento do círculo que deve reconduzi-lo à plenitude. Alma toma consciência de seu poder de representação frente aos simulacros do mundo.
  • Erro de julgamento: consciência individual não é espaço espiritual adquirido; amplia-se por patamares até abertura completa do intelecto universal às realidades divinas.
  • Limite da razão: razão não vê nada além de si; esta cegueira marca seu limite extremo. Outro mundo começa após razão, acessível apenas ao intelecto desencarnado dos grandes místicos.
  • Passagem ao intelecto contemplativo: intelecto puro atinge Ideias “já segregadas das intenções imaginárias”. Conversão final do olhar volta-se para realidade suprema que está no exterior do homem porque está no interior de Deus.
  • Dissolução da alteridade: no ápice, “as duas almas, tomadas juntas ou separadamente, não são mais que uma”.

Invenção humanista da “distância interior”.

  • Questionamento pioneiro: humanismo primeiro a interrogar-se sobre faculdade simultânea de adesão e reflexão do espírito humano.
  • Postulado de profundidade individual: existência de profundidade individual (não coletiva) onde celebração pode coexistir com crítica. Erasmo permanece exemplo.
  • Condição para fecundidade: sem essa profundidade, extraordinária fecundidade de imaginação do período seria impensável, e docta religio inconcebível.
  • Paradoxo da acuidade intelectual: exercita-se não contra invisível, mas termina por duvidar de seus próprios meios.
  • Cultura da inteligência: toma consciência da vaidade de seus tesouros, renuncia a definir divino sem renunciar a buscá-lo.
  • Crença na inutilidade necessária da ciência: humanista crê firmemente na inutilidade da ciência enquanto reconhece sua necessidade. Com Ficino, Pico, Cusa, Bovelles, teologia negativa tem ascensão fulgurante.
  • Proliferação paradoxal: fim do século XV repete que é vão conhecer Deus para expressá-lo, mas tratados de metafísica nunca foram tão difundidos.
  • Grandeza dos humanistas: magnificar vocação da inteligência antes de se tornarem literatos profissionais no século XVI e secretários assalariados no XVII.

Divindade da ciência e antecipação da vida futura em Ficino.

  • Conhecimento como ato divino: “Assim, a mente concebe em si mesma, ao entender, tantos objetos quantos Deus produz no mundo ao entender”.
  • Supremacia do espírito sobre matéria: divindade do conhecimento deriva desta superioridade e triunfará em vida futura onde reinará princípio intelectual da criação.
  • Ciência como meio natural do homem: idealmente, humanidade em Deus viverá de pura intelecção.
  • Antecipação no estudo: humanistas antecipam este estado de volúpia espiritual na intimidade meditativa de seu gabinete de estudo.
  • Alegoria em Dürer: São Jerônimo em sua biblioteca fecha-se ao mundo para abismar-se no estudo do pensamento divino; alma sensível e vegetativa (cão) dorme junto à caveira das vaidades mundanas.

Dois estados da consciência cognitiva representados por Dürer.

  • Melancolia e São Jerônimo como díptico: representam dois estados do conhecimento humano ou duas meditações do espírito em condição terrestre.
    • Cultura positiva: domina natureza buscando Deus.
    • Teologia negativa: encontrando Deus, renuncia a este domínio inútil.
  • Anjo de asas cansadas: parte intelectiva da alma assemelha homem ao anjo, mas espírito angélico, ao atingir intuição de Deus, vive experiência indizível.
  • Silêncio da iluminação final: quando almas dos sábios conhecem “Princípio pelo Princípio” e comunicam-se “quase por aceno”, linguagem torna-se impossível e ciência vã.
  • Herança neoplatônica: constatação recolhida de Proclo, Dionísio e Agostinho.
  • Imperativo humanista: empresa cultural só vale ser perseguida se perpetuar consciência ou memória do inefável.

Silêncio de Deus e gênese da linguagem a partir do obstáculo material.

  • Silêncio inviolável: como divindade invisível, circunscreve limites do discurso e escrita metafísicos.
  • Linguagem não preexiste em Deus: não existe em Deus nem no intelecto intuitivo; não preexiste ao obstáculo das formas.
  • Nascimento da linguagem: nasce do próprio obstáculo da matéria, que diviniza ao constituir-se por ela, articulando-se nas formas.
  • Processo da criação: faz surgir solidariamente sentido e forma numa unidade necessária que razão, para apreendê-la, torna dialética e binária.
  • Superação de Pico: insistência na consubsistência íntima (intrínseca) das Ideias e Vênus supera genialmente dualidade que viria a intoxicar estética ocidental. Ideia (Pensar vivificante de Deus) não é sentido significado pela forma angélica; ela “é” esta forma.
  • Condicionamento da expressão: toda expressão é um condicionamento. Encarnação no mundo sensível é summum do condicionamento no abaixamento.
  • Distinção entre fundo e forma: Manifestação, já condicionada no espírito angélico, foi voluntariamente mascarada na figura do abaixamento.
  • Palavra divina vs. palavra humana: Palavra divina é imediata efusão de vida; palavra humana é mediação, fragmentação necessária da plenitude desta vida.
  • Teologia poética: não pretende quebrar silêncio de Deus, mas remontar ao sentido mais elevado das mediações da linguagem.

Consciência histórica como distanciamento e retorno.

  • Passagem da Idade Média à Renascença: de consciência imanente de Deus na história para consciência crítica desta história.
  • Redescoberta da Antiguidade: expressa ardente desejo de identificação com passado mantido na distância do modelo que propõe ao presente.
  • Crítica que cria o objeto: humanista, por sua divagação crítica, antes constrange objeto (passado) à imitação do presente.
  • Princípio da “transformação” (Pico) e “digestão” (Rabelais): respondem à exigência de “nutrir-se” da História.

Hermenêutica de Pico como desvelamento escatológico.

  • Não é filologia acadêmica, mas interpretação, exegese, deciframento que faz surgir Presente da história.
  • Oposição à estética moderna: pensamento não é independente do corpo da palavra; espessura do signo contribui para sua potência de evocação.
  • Aparição do sentido: envolve-se na fragilidade obscura de todos os nascimentos.
  • Conhecimento e prova do desnudamento: conhecimento que quer compreender (não explicar) não pode poupar-se à prova do desnudamento supremo que envolve sua linguagem.
  • Posição de Pico: crê em linguagem que desdobra mediações, mas constata impossibilidade de reenrolar nela a Evidência última, Deus incondicionado. Sua metafísica nunca nomeia, apenas aproxima-se.

Senso do sentido latente e culto do fragmento.

  • Resposta insatisfatória (Peter Burke): “gosto do sentido latente” como elitismo literário, mimetismo natural ou desejo de evitar banalidade.
  • Verdadeira significação: enigmas e emblemas reproduzem vias secretas da manifestação divina e evocam pregnância simbólica de todas as formas do universo, irradiadas por sentido inefável.
  • Fragmento e inacabamento: culto do fragmento e inacabamento (Leonardo, Michelangelo) é legítimo porque formas do mundo e do espírito estão parcialmente engajadas no invisível.
  • Invisibilidade do ideal e da metafísica: Hypnerotomachia eleva fragmento arqueológico; obras de Pico são projetos de edifício mais vasto nunca erguido.
  • Silêncio das obras: humanistas fazem ouvir voz distante ao cercar obras de silêncio literário ou plástico.
  • Emblema da atitude de Pico: “Preferimos, no entanto, nunca conhecer pelo conhecimento aquilo que ardentemente buscamos… do que possuir no amor aquilo que se descobriria em vão sem amor”.

Dualidade constitutiva do intelectual humanista: o “Janus bifrons”.

  • Dois rostos: um voltado para inefável, outro para dizível.
  • Coabitação de dois homens: aquele que contempla e cala; aquele que sabe e fala. O contemplativo olha o sábio com pudor, embaraço ou constrangimento.
  • Têmpera da ousadia: temeridade da ciência deve ser refreada pela sabedoria em reconhecimento de mistérios mais altos.
  • Dupla leitura do mundo: movimento especulativo acompanha movimento inicial de investigação prática.
  • Espaço físico como sequência do espiritual: para Leonardo, espaço físico é sequência da extensão espiritual invisível do universo.
  • Princípio de expansão e focalização: expansão formal na investigação acaba por resolver-se graficamente em ponto de dissolução das formas materiais, seu ponto de emissão no invisível.

Importância do subentendido, fábula, enigma, elipse.

  • Pressentimento de texto invisível: escrita visível envolve núcleo de inefabilidade e envolve a si mesma de inefável.
  • Especularidade da visão: em universo regido pela lei do duplo e sua inversão, conhecimento é visto como contendo Deus e contido por Ele.
  • Redução da humanidade ao impalpável: homem, tornado olho de Deus na Terra, vê sua humanidade reduzir-se ao impalpável na transformação geral das formas.
  • Essência como vacuidade para aparência: essência é vacuidade para aparência, concepção que exige ruptura das representações do mundo ou do indivíduo.
  • Exemplo do Grasso Legnaiolo: Brunelleschi esvazia identidade de carpinteiro, ensinamento cruel sobre vertigem gerada pela frequência do vazio e falibilidade dos sentidos diante do invisível.

Concentração na inefabilidade e eleição dos “distintivos do sonho”.

  • Obras típicas: contemplam objeto invisível, subtraído ao olhar comum, visto na claridade crepuscular do sonho ou utopia.
  • Sonho como abertura ao além: contra Buffon, sonho abre portas do além; contra Goya, sono da razão não gera monstros.
  • Irracional como animalidade: irracional não é categoria do fantástico, mas da animalidade privada de inteligência; delírio não é ainda “perturbação da razão”.
  • Escolha do artista: elege “distintivos do sonho” (leggiadria, vaghezza, sfumato), que são também instrumentos do infinito.
  • Objeto da arte e do pensamento: colocado na fronteira dos mundos concreto e imaginário.

Conclusão sobre doutrina do amor verídico e rendição do espírito.

  • Doutrina no rastro do neoplatonismo florentino: surge como se Savonarole tivesse liberado absoluto veemente que Pico e Ficino domesticaram.
  • Chamado à coesão intuitiva: Heptaplus termina com apelo à coesão intuitiva da humanidade na Verdade, por “amor verídico de Deus”.
  • Exaustão das formas: alma exaure todas as formas do pensamento pensante, como pensamento previamente exaurira todas as formas do mundo precário.
  • Precariedade final do espírito: espírito vê-se votado a negar-se a si mesmo em muda adoração do indizível, incapaz de constituir-se em sistema no divino.
  • Retorno ao Uno na união contemplativa: resposta última pela qual humanistas temperam declarações aporéticas.
  • Consciência de não pertencer a si: marca consciência íntima de não pertencer a si mesmo, de não reivindicar valor de sua inteligência para si, mas para uma transcendência.
  • Inteligência como “aquém do Verdadeiro”: intelecto que o místico sempre é renuncia à emoção privada do conhecimento, à superioridade transitória da certeza sobre o mundo, para conhecer exata natureza do pensamento humano, roído pelo infinito e secretamente trabalhado pela semelhança de Deus.
  • Preservação do intercâmbio: preocupação em preservar intercâmbio do visível e invisível, do dizível e indizível, leva humanista metafísico a cumprir gesto da verdade mais que afirmar sobre ela seu domínio.
  • Ausência como evidência: em palavras pobres, ausência serve de evidência e demonstração.
  • Dualidade inevitável do discurso: condições de relatividade, mediação e transformação do pensar alteram sempre imobilidade da visão intuitiva. Dualidade do discurso quebra unidade mística confinada no círculo íntimo da interioridade.
  • Bifrontalidade como divórcio: nesse ponto, bifrontalidade é mais divórcio que ubiquidade. Impõe-se crueldade de escolha.
  • Pensar como simulacro: pensar é oferecer apenas simulacro de apreensão que incessantemente nos escapa, propor apenas metáforas possíveis de verdade, afirmar intenção mais que ato.
  • Jogo útil e grave: este jogo é útil e grave porque desvela lei da incognoscibilidade última onde se consome drama exemplar do espírito.
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