Tratado 53 (I, 1) – O organismo e o si mesmo

destaque

O tratado 53 foi colocado por Porfírio no início das Enéadas; é no entanto o penúltimo que Plotino compôs1. Pode-se ficar surpreso que a ordem didática vá assim ao contrário da ordem cronológica. A razão disto é lida desde as primeiras linhas do texto: este sendo tecido de reminiscências do Primeiro Alcibíades; como ele, é regido pelo preceito délfico do “Conhece-te a ti mesmo”. Reveste portanto a mesma função: assim como, no curso de estudos neoplatônicos, o Primeiro Alcibíades fazia figura de introdução à obra de Platão, assim como este Tratado 53 representa o preâmbulo às Enéadas. Não constitui somente uma introdução aos tratados éticos agrupados por Porfírio na primeira Enéada, mas a obra de Plotino por inteiro.

Cabe a este tratado a tarefa de da conversão à filosofia: ele vai suscitar no leitor o estado de alma e de espírito que lhe permitirá progredir nas Enéadas. Deve ser lido como um texto não somente propedêutico mas iniciático, buscando provocar, naquele que o lê de perto, não se deixando levar por sua complexidade mas se esforçando em apreender os temas e seguir o movimento, modificações concretas, uma verdadeira transformação.

Eis aí um outro paradoxo: este texto inaugural nada tem de fácil nem mesmo, à primeira vista, de sedutor. Os comentadores notaram que se trata de um dos tratados mais complexos das Enéadas: isto se deve a princípio ao fato que ele parece ser composto de duas partes distintas, donde mal se vê o que as liga. Esta dualidade se reflete então no título que lhe atribuiu Porfírio: “O que é o animal? O que é o homem?”. Se a segunda parte é bem regida pela problemática do Primeiro Alcibíades (à qual no entanto, Plotino impõe deslocamentos decisivos), a primeira é por aquela do De Anima de Aristóteles. Ela obedece assim fazendo ao procedimento, corrente em Plotino, da “investigação prévia”: a questão platônica da essência do homem (que Plotino reformula como sendo aquela da natureza do mim-mesmo ou, mais precisamente, do “nós”, do hemeis), não pode ser posta senão uma vez resolvida a questão aristotélica da união da alma e do corpo. Antes de decidir se o homem pode, como o quer Platão, ser identificado à alma, ao invés do corpo, ou à mistura da alma e do corpo, é preciso ainda determinar se a alma pode habitar em estado separado, o que supõe distinguir entre os atributos que lhe são próprios e aqueles que ela compartilha com o corpo.

Tal é, poderia se dizer, a estrutura “escolar” do tratado; mas esta estrutura mascara uma outra, mais profunda, onde se revela, além do trabalho de exegese e de conciliação das teses de Aristóteles e Platão, a originalidade de Plotino, o caráter inovador de seus problemas como de suas soluções.

A verdadeira questão do Tratado 53 não é aquela do homem, mas aquela do sujeito. Ela é anunciada desde as primeiras linhas do texto por uma questão reflexiva que leva a simples enquete sobre as faculdades em direção a uma interrogação sobre o sujeito mesmo que conduz esta enquete. Na entrada do Tratado 53 surge então algo como um sujeito no sentido moderno do termo, quer dizer uma consciência reflexiva, capaz de se interrogar sobre suas operações e sua identidade. Assim que aparece, no entanto, este sujeito desaparece: ao mesmo tempo que a questão do Primeiro Alcibíades dá lugar àquela do De Anima, o sujeito moderno, o sujeito consciência, se apaga diante do sujeito lógico, o sujeito-substância. A questão da identidade é largada em benefício daquela da atribuição. Ela não reaparece senão ao termo de uma longa volta – cuja necessidade, no entanto, se revelará pouco a pouco: não é senão uma vez elucidada a questão da relação da alma e do corpo, uma vez demonstrada, portanto, que a alma não se mistura ao corpo mas o anima por intermédio de um poder emanado, que se poderia perguntar, de novo, se o “nós”, o hemeis, é a alma ou composto do corpo e deste poder. É então, e somente então, que parecerá que o sujeito, precisamente, não é uma substância: o “nós” não é nem a alma essencial, ato puro, pura forma (a alma que se poderia dizer “platônica”), nem a substância (que se poderia dizer “aristotélica”), composta de forma e de matéria, misturada de corpo e de poder emanado: ele é o poder de devir um ou outro; nada mais é, de fato, que um ou outro em potência. Sujeito não-substancial, o sujeito plotiniano deverá ser pensado como um sujeito sem identidade, um puro poder de identificação.

original


  1. Porfírio reporta que o recebeu, com os tratados 51, 52 e 54, no início do segundo ano do reino de Claudio, seja em 270, pouco antes da morte de Plotino. Pode se situar a data de redação destes quatro últimos tratados entre 268 e 270. P. Hadot os qualifica de “últimos solilóquios”, através dos quais o filósofo, chegando ao término de sua vida, se esforçará por alcançar a serenidade. 

  2. Porphyre rapporte qu’il l’a reçu, avec les traités 51, 52 et 54, au début de la seconde année du règne de Claude, soit en 270, peu avant la mort de Plotin ( Vie de Plotin, 6, 17). On peut situer la date de rédaction de ces quatre derniers traités entre 268 et 270. P. Hadot les qualifie d’« ultimes soliloques », à travers lesquels le philosophe, parvenu au terme de sa vie, s’efforcerait d’atteindre à la sérénité (cf. Plotin ou la simplicité du regard, Paris, Gallimard, coll. « Folio », 1997, p. 172). 

  3. Sur le motif du « Connais-toi toi-même » et sur la tradition de l’Alcibiade, cf. P. Courcelle, Connais-toi toi-même ; de Socrate à Saint Bernard, Paris, Études augustiniennes, 1974 ; J. Pépin, Idées grecques sur l’homme et sur Dieu, Paris, Les Belles Lettres, 1971 ; dans son rapport avec le Traité 53, cf. G. O’ Daly, Plotinus’ Philosophy of the Self, Irish University Press, Shannon, Irlande, 1973. 

  4. Sur l’ordre de lecture des dialogues de Platon, voir, entre autres, A. J. Festugière, « L’ordre de lecture des dialogues de Platon aux V-VI siècles », Museum Helveticum, 26 (1969), p. 281-296 ; M.-O. Goulet-Cazé, « L’arrière-plan scolaire de La Vie de Plotin », dans Porphyre : La Vie de Plotin I, travaux préliminaires et index grec complet par L. Brisson, M.-O. Goulet-Cazé, R. Goulet et D. O’Brien, Préface de J. Pépin, Paris, Vrin, 1982 ; I. Hadot, Le Problème du néoplatonisme alexandrin. Hiéroclès et Simplicius, Paris, Etudes augustiniennes, 1978. 

  5. L’image est appliquée par Olympiodore à l’Alcibiade (In Alc., p. 10.18-11.6) ; le même Olympiodore établit un parallèle explicite entre le Traité 53 et l’Alcibiade : « Le rôle que tient chez Plotin le premier traité dans les Ennéades : Qu’est-ce que le vivant et qu’est-ce que l’homme ?, où il montre que le vivant est le composé âme-corps, tandis que l’homme est l’âme, — ce rôle est tenu chez Platon par l’Alcibiade (…) » (ibid., 8.15-9.19, cité et traduit dans A. Ph. Segonds, Produs. Sur le Premier Alcibiade de Platon, t. I, introduction, p. lxxxiii, Paris, Les Belles Lettres, 1985). 

  6. C’est ce que note O’Daly, Plotinus’ Philosophy of the Self, chap. I. 

  7. Voir notamment O’Daly, ibid., et R. Harder, Plotins Schriften, vol. V, b. Anmerkungen, Hambourg, 1960. O’Daly y voit cependant aussi le « sommet de la réponse plotinienne à la question de soi » (ibid., p. 47). 

  8. En grec : « Τί τὸ ζῷον καὶ τίς ό ἄνθρωπος ». Ici comme ailleurs, la traduction de zôon pose problème puisque ce terme ne s’applique pas seulement aux espèces animales (il s’étend aux hommes et aux dieux), sans pour autant couvrir tout le champ du vivant (il exclut les plantes) : cf. F. Wolff : « L’animal et le dieu : deux modèles pour l’homme », dans L’Etre, l’homme, le disciple, Paris, PUF, 2000. J’ai cependant choisi de conserver la traduction classique, et celle, aussi, qu’adopte Bréhier, par « animal », du fait de la prédominance de la problématique éthique : il s’agit pour Plotin de distinguer ce qui, en l’homme, est proprement humain du bestial, d’une part, et du divin, de l’autre. Au terme de zôon se substituera d’ailleurs celui de « θηρίον », qui, lui, qualifie proprement l’animal féroce ou sauvage, la « bête » (7, 21). 

  9. « Il nous faut aussi considérer (…) ceci même qui recherche, qui examine et tranche ces questions : qui peut-il bien être » (1, 9-11). 

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