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I, 1 O ORGANISMO E O SI MESMO

Tratado 53

Brisson & Pradeau

BP

  • O tratado 53 (I, 1) é o penúltimo tratado redigido por Plotino, quando Porfírio já havia deixado Roma para a Sicília, sendo um dos últimos quatro textos escritos por Plotino sozinho e gravemente enfermo, nos anos 269 e 270, conforme a Vida de Plotino, 6, 15-25.
    • O tratado tem a particularidade de ter sido escolhido por Porfírio para figurar no início das Enéadas: ao organizar os cinquenta e quatro tratados em seis enéadas, Porfírio reservou o primeiro lugar às questões mais fáceis, considerando que as reflexões morais e éticas constituíam a melhor propedêutica possível à leitura da obra de Plotino.
    • A ordem editorial assim concebida visava acompanhar o leitor numa ascensão progressiva em direção ao princípio de todas as coisas, o Bem, o Uno que está além do ser, formando-o progressivamente para questões filosóficas cada vez mais árduas; a primeira Enéada incluía tratados como Sobre as virtudes, Sobre a felicidade e Sobre o belo.
    • Ao contrário de outros tratados vizinhos na edição, como Sobre as virtudes, o tratado 53 tem a particularidade de ser suficiente: pode ser lido sem exigir do leitor conhecimento aprofundado da doutrina plotiniana nem o obrigar a seguir debates de escolas, sendo a parte doxográfica e a refutação de teses adversas mais discretas do que em outros tratados.
    • O objeto ético do tratado é suscetível de interessar a qualquer pessoa preocupada com a condução de sua existência.
  • O objeto do tratado permanece um pouco fugidio: o ponto de partida é a questão das afecções, indagando a quem elas pertencem e quem as experimenta.
    • Essa questão não é colocada por si mesma, mas pelo que pressupõe: conforme as afecções sejam experimentadas pela alma ou pelo corpo, não se tem sobre elas a mesma capacidade de controle; e se fossem experimentadas pela alma, isso significaria, como defendem certos filósofos, que a própria alma seria passível e portanto falível.
    • Ao colocar a questão do sujeito das afecções, Plotino coloca ao mesmo tempo a questão do vivente humano e do modo como alma e corpo estão nele ligados; a da natureza humana e do que faz que um indivíduo experimente afecções, possua opiniões e pensamentos; e sobretudo a questão do que se pode fazer e do que se é responsável.
    • A questão ética é pressuposta pela das afecções: conforme o que em nós experimenta as afecções seja o corpo, a alma, uma parte da alma ou o composto de alma e corpo, não se terá nem o mesmo domínio sobre o que nos afeta, nem a mesma responsabilidade ética.
    • A questão inicial é portanto um modo de entrada numa reflexão ética mais do que o objeto do próprio tratado.
  • Se a alma é impassível, como Plotino sustentou sem cessar em sua obra, por exemplo em 22 (VI, 4), 8, e em todo o tratado 26 (III, 6), intitulado precisamente Sobre a impassibilidade dos incorpóreos, ela não poderia ser nem deficiente nem ameaçada pelas afecções, que por definição concernem apenas ao corpo.
    • Se os viventes humanos têm uma alma e sua identidade consiste mais nessa alma do que no corpo de que ela se serve como instrumento, então seriam infalivelmente impecáveis, e não se poderia mais explicar o mal moral que os homens praticam, nem como podem se subtrair a ele e praticar o bem.
    • Nenhuma ética seria, em outros termos, mais concebível.

Igal

Este tratado, cronologicamente o penúltimo, foi escrito por Plotino no último ano de sua vida (Vida 6, 16-25). Porfírio o colocou em primeiro lugar, provavelmente com base no princípio de que a verdadeira filosofia deve começar pelo autoconhecimento. Este tratado é, de fato, a última palavra de Plotino sobre o homem, uma brilhante síntese da nova antropologia elaborada ao longo dos tratados das fases intermediária e tardia. Partindo da análise crítica do sujeito dos fenômenos da vida sensitivo-afetiva, moral e intelectiva, o homem nos é apresentado, em I 1, como um conjunto unitário de três níveis sobrepostos: o ínfimo, pelo qual o homem é animal; o intermediário, pelo qual o homem é especificamente homem, e o supremo, pelo qual o homem, participando das duas primeiras Hipóstases, transcende a si mesmo. Embora os temas se entrecruzem às vezes de tal modo que é impossível delimitá-los nitidamente, podemos agrupá-los em cinco seções.


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