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I, 3 SOBRE A DIALÉTICA

Tratado 20

Brisson & Pradeau

BP

  • O tratado Sobre a dialética é a continuação do tratado 19 (I, 2) Sobre as virtudes, redigidos sucessivamente por Plotino e publicados juntos por Porfírio na primeira Enéada.
    • Enquanto o tratado 19 se encerra sobre a necessidade de se elevar ao divino e de superar a aquisição das virtudes cívicas, o tratado 20 (I, 3) descreve o meio dessa ascensão que deve permitir “a assimilação ao deus, na medida do possível”.
    • A dialética é definida como método, mas como método de purificação ética: a disciplina à qual a alma deve se sujeitar a fim de ter acesso ao bem.
    • Para Platão, a dialética é a ciência e a técnica que, por meio do diálogo, permite conhecer “o que é” e não apenas o que devém, sendo um método discursivo para a pesquisa e definição da realidade, com ferramentas como a divisão e o uso de paradigmas, e não de vocação imediata ou exclusivamente ética.
    • Ao reservar à dialética a função de cumprir a purificação e a remontada ao divino, Plotino não desnatura o uso platônico dessa ciência, mas subordina sua definição à sua interpretação global da doutrina platônica: a condição necessária da remontada da alma ao Intelecto, seu princípio, torna-se o conhecimento do inteligível, e o uso mais eminente da faculdade racional, a que Platão chama dialética, torna-se o meio apropriado dessa remontada.
    • Plotino precisa que essa remontada é indispensável nos homens parcialmente despertos que são os “músicos”, os homens cultos e os amantes, e às vezes necessária nos filósofos.
  • Para descrever o método de ascensão, Plotino recorre à autoridade do Banquete e sobretudo do Fedro, especialmente ao mito da quadriga alada e à passagem em que Platão ensina que “a alma que teve a visão mais rica irá se implantar numa semente que produzirá um homem destinado a se tornar um filósofo, alguém que aspira ao belo, isto é, um músico e um amante” (Fedro, 248d).
    • Nesse mito, a existência das almas obedece a ciclos de dez mil anos: durante mil anos separadas dos corpos, as almas contemplam as realidades inteligíveis; nos nove milênios seguintes, animam sucessivamente corpos de seres vivos cuja natureza muda conforme o valor da vida precedente.
    • Conforme o grau de contemplação dos inteligíveis atingido, a alma anima o corpo de tal ou tal tipo de homem: a melhor das almas terrestres anima assim um filósofo, um músico ou um amante, capazes de remontar da beleza sensível até sua causa, o Belo em si.
    • Plotino encontra no relato platônico os termos e as figuras de sua análise da dialética, distinguindo os três personagens que Platão havia associado: o músico, o amante e o filósofo não são mais um único homem, mas três graus distintos da ascensão inteligível, descritos sucessivamente nos três primeiros capítulos.
  • O capítulo 4 distingue a dialética ascendente descrita dos outros sentidos que o termo “dialética” assumiu nas diferentes escolas filosóficas.
    • Nomeia-se comumente dialética um método de análise cujos objetos são proposições relativas ao bem e ao seu contrário, ao eterno e ao não eterno; essa dialética tem por instrumento e objeto a linguagem e corresponde ao que Aristóteles e os estoicos elaboraram sob o nome de “lógica”.
    • Plotino insiste em não confundir a dialética verdadeira com a lógica que, por mais necessária que seja, só pode ser um preliminar à ascensão, aplicável apenas às coisas sensíveis, e que se qualifica às vezes de “descendente” para melhor distingui-la da ascensão platônica.
    • O capítulo 5 traz argumentos teóricos para essa distinção, associando a dialética verdadeira, que tem por fim a contemplação, à atividade do intelecto, enquanto minimiza o valor da discursividade da dialética que, interessando-se pelo sensível, permanece atividade racional da alma.
  • O último capítulo expõe o vínculo entre a dialética platônica e as outras partes da filosofia, física e ética, afirmando que a dialética é a mais preciosa de todas as partes da filosofia não para diminuir a física e a ética, mas para distingui-la novamente da lógica.
    • O tratado 20 (I, 3) verifica, sob o aspecto do conhecimento, a lição ética do tratado 19 (I, 2): assim como as doutrinas e práticas éticas dos aristotélicos e dos estoicos podem ser conservadas como exercícios preliminares à verdadeira purificação da alma, também suas lógicas podem servir de preliminares ao conhecimento do verdadeiro objeto da alma, o inteligível.
    • Umas e outras, porém, devem ser superadas, especialmente por terem escolhido distinguir a purificação ética do cumprimento racional da alma, sem compreender de onde ela provinha nem para onde deveria se dirigir.

Igal

BCG57

Este tratado foi redigido na sequência de I 2 (Sobre as virtudes) como complemento deste, e assim deve ter entendido Porfírio, que, neste caso, fez coincidir a ordem sistemática com a cronológica. Se as virtudes superiores do tratado anterior nos deixavam às portas da Inteligência, agora é preciso dar o salto das virtudes superiores para o Ser e do Ser para o Bem. Mas ainda não se trata do acesso ao Bem pela via da união mística, mas pela via prévia do discurso racional. Tal é a missão da dialética, considerada aqui como disciplina e como virtude. Plotino segue de perto Platão em sua concepção do Bem como meta, na escolha dos candidatos à ascensão, na distinção das duas etapas do itinerário e em sua descrição do objeto e do método próprios da dialética (capítulos 1-5). Mas em sua avaliação da dialética como disciplina fundamental, por um lado, e como virtude suprema, por outro, em sua relação, respectivamente, com os outros ramos da filosofia e com as outras virtudes, ele parece inspirar-se em Aristóteles (cap. 6). Deste ponto de vista, a dialética ocupa uma posição análoga à filosofia primeira e à sabedoria teórica ou sophia do estagirita.


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