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II, 8 COMO SE DÁ QUE OS OBJETOS VISTOS DE LONGE PARECEM PEQUENOS?

Tratado 35

Brisson & Pradeau

BP

  • Porfírio afirma que a óptica está entre as ciências que Plotino conhecia bem, mas sobre as quais não desejava se deter longamente, conforme a Vida de Plotino 14, 7-10.
    • Com exceção dos cinco primeiros capítulos do tratado 29 (IV, 5), que tem como subtítulo Sobre a visão, esse tratado de três páginas é o único que aborda uma questão de óptica: por que os objetos vistos de longe parecem pequenos e as distâncias parecem mais curtas?
    • A primeira parte da questão não tem nada de esotérico: os céticos evocam o fenômeno para mostrar que não se pode confiar nos testemunhos dos sentidos; os estoicos o explicam pela fraqueza do raio visual que emana dos olhos; e os epicuristas o justificam pela erosão dos simulacros que atravessam o ar em direção aos olhos.
    • Alguns filósofos acreditam que os objetos, mesmo vistos de longe, conservam aproximadamente sua dimensão real: Epicuro afirma que a grandeza real dos astros corresponde mais ou menos à que se percebe, conforme a Carta a Pitocles 91; e Lucrécio, seguindo seu mestre Epicuro, crê que os corpos celestes se apresentam à nossa vista em suas verdadeiras dimensões, conforme Da natureza V, 564-591.
    • A segunda parte da questão, por sua vez, não tem eco nas outras escolas filosóficas.
  • O tratado enumera cinco soluções para explicar por que os objetos distantes parecem pequenos: Plotino apresenta as três primeiras sem discuti-las, defende a quarta e critica mais longamente a quinta.
    • A solução adotada se inspira no tratado aristotélico Sobre a alma, segundo o qual a cor é o primeiro objeto da visão, enquanto a grandeza só é percebida de modo secundário.
    • Plotino toma como dado que a cor e a grandeza sofrem o mesmo destino que o som quando projetados a grande distância: se diminuem; a cor se torna indistinta, a grandeza vê suas dimensões decrescer, e o som perde sua intensidade.
    • Com a distância, a cor se torna cada vez mais indistinta, e a grandeza que ela manifesta parece menor; o mesmo vale para a distância, que parece mais curta do que é: a parte distante do intervalo que nos separa do objeto visto é percebida de modo indistinto, de modo que sua dimensão parece menor do que é na realidade.

Igal

BCG57

O presente tratado do segundo período (Vida 5, 37) é uma confirmação do que nos diz Porfírio: que Plotino se interessava pelos problemas da óptica (ibid. 14, 8-9). Como é sabido, Heráclito havia afirmado que o sol mede um pé de largura[1], e os epicuristas haviam se expressado com semelhante ingenuidade sobre as magnitudes e distâncias do sol, da lua e das estrelas[2]. Plotino, neste tratado, não se propõe refutar essa teoria, mas, partindo do pressuposto de que os objetos distantes parecem menores e os próximos, maiores, tenta explicar a razão desse duplo fenômeno. A solução por ele adotada não é tirada do estudo do mecanismo da visão, mas da psicologia das sensações adaptada à sua intenção. Na sensação da visão, é possível distinguir duas classes de sensíveis: o próprio, que é a cor, e o incidental, que é a magnitude. Ora, quando os objetos estão distantes, ocorre em ambas as classes de sensíveis uma diminuição que se traduz, no primeiro caso, em um empalidecimento da cor e, no segundo, em um encolhimento da magnitude[3].

Armstrong

APE

Este tratado muito breve (n.º 35 na ordem cronológica de Porfírio) é a única evidência que nos resta do estudo de Plotino sobre óptica, mencionado por Porfírio no capítulo 14 da *Vida*. Trata-se de uma discussão acadêmica, baseada provavelmente na leitura dos *problemas* peripatéticos (sobre isso, e para evidências da origem das visões apresentadas, ver a introdução de Bröhier). A questão de por que os objetos distantes parecem menores do que realmente são foi muito discutida nas escolas filosóficas, e Plotino apresenta cinco visões diferentes. A primeira é estoica (a luz se contrai proporcionalmente ao tamanho do olho); a segunda, aparentemente, é aristotélica (percebemos a forma sem a matéria e, portanto, sem o tamanho — mas, como Plotino observa de passagem, o tamanho é uma forma); a terceira (necessidade de ver cada parte para perceber o tamanho) é epicurista; a quarta é aristotélica (percebemos a cor primariamente, e o tamanho apenas incidentalmente). Esta é a solução que Plotino prefere; ele a desenvolve com certa extensão, com uma digressão sobre os sons. A quinta é a explicação matemática pelo ângulo de visão menor, que Plotino parece achar mais interessante do que qualquer uma das três primeiras, mas que, mesmo assim, rejeita.

Lloyd

LPE

Em sua Vida de Plotino (§14), Porfírio relata que Plotino se dedicou intensamente à óptica, entre outros assuntos. Talvez esse relato tenha um tom um tanto hagiográfico, mas este tratado demonstra que Plotino se interessava por pelo menos um problema muito discutido na óptica: por que os objetos distantes parecem menores. Ele nos apresenta um total de cinco soluções para esse problema (§1.4–6, §1.6–9, §1.9–12, §1.12ff. e §2 passim), que provavelmente foram extraídas de seus predecessores filosóficos, embora o tratamento sucinto que recebem aqui torne difícil a identificação definitiva de algumas das fontes de Plotino. Plotino demonstra uma preferência inequívoca pela quarta solução, que é claramente inspirada em Aristóteles.


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