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I, 6 SOBRE O BELO

Tratado 1

Brisson & Pradeau

BP

* O primeiro tratado de Plotino, intitulado Sobre o belo, não é um tratado de estética no sentido contemporâneo, mas uma introdução geral à filosofia platônica que Plotino busca ensinar, e à atitude psicológica que ela implica.

  • O tratado começa definindo o que se deve entender pelo adjetivo “belo” antes de explicar a natureza do encontro com as coisas belas e as consequências morais desse encontro.
  • O primeiro capítulo se opõe a uma explicação tradicional da beleza fundada na proporção das partes de um todo entre si, segundo a qual as realidades harmoniosas são belas graças à harmonia quase matemática que nelas existe.
  • Para Plotino, tal explicação toma os efeitos, o equilíbrio das partes, pela causa verdadeiramente explicativa da beleza: se o equilíbrio agrada, é por causa de uma certa unidade que se manifesta através dessa harmonia.
  • O pensamento estoico, dominante na intelligentsia romana na época de Plotino, havia fortemente tematizado o vínculo entre beleza e simetria, como em Crisipo, citado por Plutarco em Sobre as contradições dos estoicos, cap. 21, e descrito por M.-A. Zagdoun em A Filosofia estoica da arte; o emblema dessa estética é a roda desdobrada do pavão, descrita de modo impressionante por Eliano no livro V de A Personalidade dos animais.
  • Plotino faz referência a realidades naturais como o fogo, o ouro e o relâmpago porque na natureza a simetria rigorosa não é a regra, e o relâmpago que rasga a escuridão é o símbolo mais nítido de sua concepção de beleza: luz, força, subitaneidade da manifestação.
  • A verdadeira origem da beleza é a Forma (eidos), doutrina central do pensamento de Platão: as coisas sensíveis se mantêm no devir apenas “por participação” a uma Forma inteligível, que é a essência efetiva da realidade.
    • A Forma do homem é “o homem em si”, não localizado num corpo nem numa matéria particular, mas o homem do ponto de vista da humanidade, por essência e não por acidente; um homem belo não é um homem de corpo bem feito, mas uma pessoa humana que manifesta o melhor possível, por sua virtude e inteligência, a essência do homem.
    • Os retratos do Fayum, na época de Plotino, acordavam grande importância à expressividade do olhar, e a arte em Roma no século III tomava distância do naturalismo helenístico, manifestando tendência à geometrização e à abstração, como no retrato de Trajano Décio (249-251 d.C., Roma, Museu do Capitólio), onde a expressividade de uma ideia prima sobre a simples reprodução das aparências.
  • Cada vez que se fala de uma coisa bela, essa beleza não se explica pela proporção das partes de um corpo, mas por um dinamismo expressivo de uma realidade que não é diretamente sensível; a beleza verdadeira é a do inteligível.
    • O problema da homonímia, de origem platônico-aristotélica, não é desenvolvido por si mesmo no tratado 1, mas Plotino o abordará em tratados ulteriores, notadamente 42, 43 e 44 (VI, 1, 2 e 3).
  • O tratado 1 liga imediatamente a questão da beleza e a da alma: a experiência estética envolve um ajustamento entre a vida psíquica e a natureza da beleza, descrito segundo o vocabulário platônico da reminiscência do Mênon, 81b-86c, do Fédon, 72e-76d e do Fedro, 249b-252c.
    • A alma descobre algo belo ao se lembrar do que conheceu antes de nascer num corpo humano, numa rememoração que conduz ao inteligível contemplado antes do nascimento.
    • Essa contemplação bem-aventurada do ser prossegue durante a vida terrestre, mas numa dimensão psíquica à qual as ocupações ordinárias, a inteligência calculista e a linguagem impedem de prestar atenção.
    • Estar atento à beleza desvia do modo discursivo de se relacionar com o mundo para reencontrar uma intuição da unidade da Forma, que é ao mesmo tempo uma intuição de si, equilavência que governa todo o tratado 1 e pela qual a estética propriamente dita é ultrapassada pela ética.
  • Ver as belezas não sensíveis supõe uma atividade psíquica desligada da sensação, e a atividade da inteligência produz uma purificação no sentido em que se fala de uma água pura, à qual nada está misturado.
    • A virtude, como o tratado 19 (I, 2) Sobre as virtudes apresentará em detalhe, não é simplesmente o fato de cumprir atos conformes à justiça, mas uma maneira de a alma se afastar do mundo sensível e reencontrar a interioridade inteligível de sua própria vida; Plotino afirma no tratado 19: “Para a alma, a justiça em sua forma superior é agir se voltando para o Intelecto, o fato de ser refletido é uma conversão interior para o Intelecto”.
    • A ética não é um cálculo de interesses que permite uma vida pacífica no mundo, mas uma tensão pela qual a alma busca reencontrar uma condição distinta daquela em que está associada a um corpo; Plotino nomeia essa tensão um “combate”.
  • A principal lição do tratado 1 é um elogio da interioridade: a potência da Forma que unifica o múltiplo e lhe dá beleza é uma potência inteiramente interior, não a força da violência ligada aos corpos, mas o poder de organização de um conteúdo racional.
    • O que vale para o saber do arquiteto vale para a Natureza e para o homem: o princípio de uma ordem particular tem sempre mais realidade do que essa ordem em si mesma, e na contemplação estética a alegria não se funda na materialidade dos objetos belos, mas na forma inteligível que se é capaz de ver pelo “olho da alma”, expressão de Platão na República, VII, 533d.
    • O tratado 31 (V, 8) Sobre a beleza inteligível afirmará: “Não vemos a beleza enquanto ela é exterior, mas ela nos afeta quando se torna interior. E, de fato, somente a forma penetra graças aos olhos.”
    • Platão já havia destacado essa potência embelezadora da Forma quando faz Sócrates dizer no Górgias (503d-504a): que cada elemento da obra dos artesãos é disposto em função de uma certa ordem até que sua totalidade constitua uma realidade ordenada e bem disposta.
    • Opondo Narciso, que se perde em seu próprio reflexo sensível, a Ulisses, que recusa os encantos da maga Circe, Plotino opõe duas relações com as imagens conforme se busca ou não sua origem.
    • O filósofo se afasta não apenas das belezas corporais, mas também da beleza das almas e dos comportamentos, para buscar no fundamento da beleza inteligível o próprio Uno, o Primeiro Princípio que responde pelo conjunto do real, e que nunca está ausente de nada, nem de nós em particular.
    • O tratado Sobre o belo descreve um itinerário da alma em direção ao divino e convida a praticar a filosofia para ter acesso à plenitude da beleza.

Bréhier

Plotin

Este famoso tratado é um dos que melhor ilustram como Plotino utiliza os diálogos platônicos, introduzindo entre eles uma ordem sistemática; toda a série de questões sobre o Belo, que abre o tratado, provém do Hipias Maior. Segundo Plotino, são as questões do Hipias que encontram sua solução no Banquete e no Fedro, como ele demonstra a partir do capítulo IV. Mas, antes de abordar essa solução, Plotino encontra primeiro a teoria estoica do Belo, que, partindo da beleza plástica, a de uma estátua, e definindo a beleza pela simetria, assimilava completamente a beleza intelectual à beleza sensível; e ele a critica, porque ela se recusa a admitir, entre as diversas ordens de beleza, essa hierarquia ascendente que constitui o cerne da doutrina platônica. A partir do capítulo II, ele toma como guia o discurso de Diotima no Banquete, passando da beleza sensível para a beleza das almas, e desta para o Belo em si. Mas, sobre a beleza dos corpos, ele encontra em Platão apenas indicações bastante vagas; sem dúvida, ele vê ali que a beleza sensível provém da participação numa ideia, e que a alma reconhece e ama essa beleza porque se lembra das ideias; mas a participação equivale à informação da matéria pela forma; e essa já não é a linguagem de Platão, mas de Aristóteles, pela qual Plotino, em toda essa parte, é visivelmente seduzido, como em todos os casos em que um neoplatônico tem de tratar das coisas sensíveis. Quando passa a falar das belezas não sensíveis, ele recorre ao Fedro e ao Banquete. Ainda assim, é preciso notar que ele mistura intimamente, como se vê no capítulo V e no final do capítulo IX, ideias morais emprestadas do Fedão e do Teeteto sobre a virtude da purificação e sobre a fuga do mundo sensível, ideias que, nos diálogos platônicos, estão longe de estar tão intimamente unidas à dialética do amor. Por fim, uma última interpretação, alheia ao platonismo original: o Belo, termo da ascensão da alma no Banquete, é identificado com o mundo das Ideias; além disso, está subordinado ao Bem, que se torna o termo último do amor. Esse é o resultado de um longo esforço, iniciado sem dúvida muito antes de Plotino, para introduzir uma coerência doutrinária no conjunto dos diálogos de Platão.

Bouillet

Ennéades

O objetivo deste livro é mostrar como, através da contemplação do Belo, é possível, ao purificar a alma e separá-la do corpo, elevar-se do mundo sensível ao mundo inteligível e contemplar o Bem, que é o princípio do Belo.

(§ I-III) A beleza não consiste na proporção nem na simetria, como ensinam os estoicos, mas na ideia, na forma ou na razão. Um corpo é belo quando participa de uma ideia, quando recebe do mundo inteligível uma forma e uma razão, quando as partes que o compõem são reunidas em unidade. Ao contemplar esse corpo, a alma reconhece a imagem visível da forma invisível que ela porta em si mesma e experimenta um sentimento de simpatia pela beleza que impressiona seus sentidos.

(IV-VI) Acima dos objetos sensíveis, que só são belos por participação, existem os objetos inteligíveis, que são belos por si mesmos: tais são a virtude e a ciência, cuja contemplação inspira sentimentos de amor e admiração. Isso porque, pelo vício e pela ignorância, a alma se afasta de sua essência e cai no lodo da matéria, enquanto, pela virtude e pela ciência, ela se purifica das manchas que havia contraído em sua união com o corpo, e se eleva à inteligência divina, da qual deriva toda a sua beleza.

(VII-IX) Ao examinar a que princípio cada ser deve a forma que constitui sua beleza, remonta-se do corpo à alma, da alma à Inteligência divina e da Inteligência divina ao Bem. De fato, é para o Bem que tudo aspira, é do Bem que tudo depende, que tudo recebe a vida e o pensamento; é ele que, embora permaneça imóvel em si mesmo, faz com que os seres que o contemplam participem de sua perfeição. Para ter a intuição dessa Beleza inefável, diante da qual todos os bens da terra não são nada, é preciso desviar nosso olhar das coisas sensíveis, que oferecem apenas pálidas imagens das essências inteligíveis, e retornar à região onde habita nosso Pai. Para alcançar esse objetivo, devemos voltar para dentro de nós mesmos, purificar nossa alma pela virtude e adorná-la pela ciência; depois, após termos tornado nossa alma semelhante ao objeto que ela aspira contemplar, elevar-nos à Inteligência divina, na qual residem as ideias ou formas inteligíveis: então, acima da Inteligência divina, encontraremos o Bem, que faz irradiar ao seu redor a Beleza soberana.

Igal

BCG57

Nesta obra, a primeira composta por Plotino (Vida 4, 22), a mais traduzida e a mais divulgada, os dois temas fundamentais da filosofia plotiniana — a metafísica e a mística — se entrelaçam de maneira característica. A identificação decidida da beleza com a forma marca uma revolução na história da estética e permite ao seu autor estabelecer a seguinte gradação: a beleza sensível identifica-se com uma forma imanente; a da alma, com uma forma transcendente, mas secundária; a própria da Inteligência, com a Forma transcendente e primária, enquanto o Bem, como princípio da forma, é também princípio da beleza, mas não é, estritamente, a Beleza. Ora, o que prometia ser uma dissertação metafísica transforma-se de repente, a partir do cap. 7, em uma exortação apaixonada à união mística pela via da beleza, deixada a meio no I 3. Plotino se inspira profundamente nos diálogos mais místicos de Platão (O Banquete, o Fedão, A República e o Fedro), mas difere de seu mestre pela maior «nitidez» com que distingue o Bem da Beleza e pela maior ênfase com que recomenda o caminho da interioridade[1].

Lloyd

LPE

Este tratado é o primeiro na ordem cronológica das Enéadas estabelecida por Porfírio. Embora a obra tenha servido frequentemente como uma introdução relativamente acessível ao complexo pensamento sistemático de Plotino, não há motivos para acreditar que Plotino a tenha concebido com esse propósito. A obra centra-se na natureza da beleza física e na sua relação com a beleza moral e intelectual. Baseia-se fortemente na interpretação que Plotino faz do Simpósio e do Fédro de Platão. O Tratado 5.8 (31), “Sobre a Beleza Inteligível”, apresenta um argumento complementar. Um tema central desta obra é a inseparabilidade das considerações estéticas e éticas. A beleza é aqui apresentada como manifestações hierarquicamente ordenadas de uma propriedade da realidade inteligível, a saber, sua atratividade para nós.


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