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TRATADO 50 (III, 5) - DO AMOR OU EROS

Enéada III,5

Brisson & Pradeau

BP

Capítulo 1. Introdução. O amor como paixão da alma.

linhas 1-10. Questões iniciais: o amor é um deus, um demônio ou uma paixão da alma? É preciso voltar ao ensinamento de Platão.

linhas 10-26. O amor como paixão da alma. O princípio do amor é o desejo que, por natureza, a alma sente pela beleza.

linhas 26-38. Defesa de Eros ligado ao mundo sensível.

linhas 38-65. Eros como paixão se apresenta em três formas: o Eros puro, o Eros misto moderado e o Eros misto pervertido.

Capítulo 2. O amor como deus. Ligação entre Afrodite e Eros.

linhas 1-10. Teólogos e filósofos fizeram de Eros um deus; Platão fez dele o filho, por um lado, de Afrodite, por outro, de Poros e de Penia.

linhas 10-19. Quem é Afrodite? – Na realidade, existem duas Afrodites: uma celestial (Ourania) e outra ligada ao mundo sensível.

linhas 19-32. A Afrodite celestial, nascida de Cronos (que representa o Intelecto), é a alma divina e pura, sem relação com a matéria.

linhas 32-46. Retorno ao deus Eros: nascido da atividade de Afrodite (= a alma) que se volta para Cronos (= o Intelecto), ele é, acima de tudo, visão.

Capítulo 3. O deus Eros nasceu da Afrodite celestial, que representa a alma divina. A segunda Afrodite, que representa a alma do mundo, gera então um Eros interior ao mundo.

linhas 1-6. Éros é uma realidade que provém da atividade da alma voltada para o Intelecto, assim como a alma divina provém da atividade do Intelecto voltado para o Um.

linhas 6-21. Nascido da alma divina que contempla intensamente, Éros deve sua existência à visão (hórasis) e também encontra sua satisfação na contemplação dos deuses.

linhas 21-27. A alma pura, separada da matéria, produz um Eros puro que é apenas visão.

linhas 27-38. Após a alma celestial vem a alma do universo sensível: esta segunda Afrodite gera um Eros interior ao nosso mundo.

Capítulo 4. O Eros das almas individuais. – Correlação universal entre a alma e o Eros.

linhas 1-9. Existe um Eros que corresponde a cada uma das almas individuais: é o demônio que acompanha cada ser vivo em particular.

linhas 9-18. Relação entre o Eros individual e o Eros universal: o Eros unitário é, ao mesmo tempo, plural.

linhas 19-25. Resumo: em toda parte ligado à alma, Eros é a realidade nascida da alma voltada para o bem. É um deus se corresponde à alma pura, um demônio se corresponde à alma misturada ao mundo sensível.

Capítulo 5. O Eros do Banquete não deve ser interpretado como o mundo sensível.

linhas 1-4. O Banquete levanta a questão da natureza dos demônios em geral, e de Eros em particular.

linhas 5-21. Dificuldades decorrentes da interpretação de Eros do Banquete como designando o mundo sensível: contradição interna em Platão, contradição lógica, expressões forçadas.

Capítulo 6. A natureza dos demônios.

linhas 1-13. O Eros do Banquete, filho de Penia e de Poros, é um demônio como os outros, ou seja, um intermediário, eterno como os seres divinos, mas suscetível de ser afetado pelas paixões, como as almas humanas?

linhas 13-27. Status distintivo dos deuses e dos demônios: os primeiros estão excluídos do sensível, os segundos do inteligível. Relação dos demônios com as almas.

linhas 28-36. Entre os diversos demônios, o status particular de Eros deve-se ao fato de ele ser gerado pela alma quando esta deseja o bem e o belo.

linhas 36-45. Por que e como os demônios participam da matéria.

Capítulo 7. Interpretação alegórica do mito do Banquete.

linhas 1-12. No mito do nascimento de Eros, Penia representa a indeterminação da alma e Poros seu princípio racional (logos) de determinação.

linhas 12-15. Ambivalência de Eros, que é razão, mas razão impura e indeterminada.

linhas 15-26. Nascido de um princípio racional de determinação e da indeterminação da alma, Eros é, por natureza, insaciável.

linhas 26-39. Analogia entre Eros e os outros demônios.

linhas 39-46. Diversidade dos amores, conforme sejam conformes ou contrários à natureza.

linhas 49-58. Digressão epistemológica: analogia das diferentes formas de Eros com os atos de intelectão.

Capítulo 8. O jardim de Zeus: continuação da interpretação alegórica do Banquete. – Afrodite é a alma unida a Zeus.

linhas 1-11. Ora, o que representa Zeus? – Para Platão, é um grande soberano e uma causa, a terceira; nele encontram-se uma Alma e um Intelecto reais.

linhas 11-17. Zeus representa, portanto, o Intelecto e Afrodite a alma; a etimologia do nome de Afrodite a relaciona com a graça (habron).

linhas 17-23. Os deuses masculinos correspondem ao Intelecto, as divindades femininas à alma.

Capítulo 9. Fim da interpretação alegórica do Banquete. – Teoria do mito e recapitulação.

linhas 1-23. O jardim de Zeus (continuação): os diversos aspectos da descida do logos, que se derrama do Intelecto para a alma, são representados tanto por Poros, quanto pelo néctar e pelo jardim.

linhas 24-29. Reflexão sobre o uso dos mitos: suas narrativas fragmentam uma unidade conceitual que é preciso reconstituir.

linhas 29-53. Síntese recapitulativa sobre o conjunto das figuras alegóricas: Afrodite corresponde à alma (30-33); Poros às razões na alma (33-39); Éros aos aspectos opostos da alma (39-49); Penia à matéria (49-53).

linhas 53-57. Conclusão sobre o caráter demoníaco de Éros.

Bouillet

Ennéades

(I) O amor, considerado como paixão da alma humana, é o desejo de se unir a um objeto belo. Deseja-se ora possuir a beleza por si mesma, ora associar a ela o prazer de perpetuar a espécie, produzindo no mundo sensível uma imagem temporária das essências eternas do mundo inteligível.

(II) O amor considerado como deus é a hipóstase (o ato substancial) de Vênus Urania, ou seja, da Alma celestial. Ele é tanto o olho pelo qual ela contempla Cronos (que representa a Inteligência divina), quanto a própria visão que dele nasce.

(III-IV) O amor considerado como demônio é filho de Vênus Popular, isto é, da Alma Interior, engajada no mundo; ele preside com ela aos casamentos. Ele é o desejo do inteligível e eleva com ele as almas às quais está unido. De fato, assim como a Alma Universal, cada alma particular contém em si um amor inerente à sua essência: esse amor é um demônio, se a alma à qual pertence estiver misturada à matéria; é um deus, se a alma à qual pertence for pura.

(V) Não se pode admitir que o Amor seja o mundo [como afirma Plutarco de Queroneia]: os atributos que Platão lhe atribui no Banquete não teriam qualquer sentido razoável nessa hipótese.

(VI) Os amores e os demônios têm uma origem comum. Eles ocupam um lugar intermediário entre os deuses e os homens. No entanto, entre os demônios, apenas aqueles são amores que devem sua existência ao desejo que a alma humana tem pelo Bem. Os demais demônios são gerados pelas diversas potências da Alma universal para o bem do Todo. Possuem corpos aéreos ou ígneos.

(VII-IX) Resta explicar o mito do nascimento do amor tal como se encontra no Banquete de Platão. - O Amor é, assim como os outros demônios, uma mistura de indeterminação e forma: ele participa tanto da indigência (Penia) quanto da abundância (Poros), porque deseja e faz com que se adquira o bem que está destinado a proporcionar; é nesse sentido que ele é filho de Penia e de Poros. Vênus é a Alma, Júpiter, a Inteligência. Poros representa as razões ou ideias que passam da Inteligência para a Alma, e o jardim de Júpiter, o esplendor das ideias.

Os mitos dividem, no que diz respeito ao tempo, o que narram; apresentam como separadas umas das outras coisas que existem simultaneamente, mas que estão distantes por sua posição ou por seus poderes[5].)

Igal

BCG57

I. INTRODUÇÃO (1, 1-10).

1. Problema: o que é o Amor? É uma divindade — um deus ou um demônio — ou um sentimento da alma? Ou será que é ambas as coisas ao mesmo tempo? (1, 1-3).

2. Método: é preciso consultar as opiniões dos outros, sobretudo as dos filósofos e, em especial, a de Platão (1, 3-10).

II. O AMOR COMO SENTIMENTO DA ALMA (1, 10-65).

1. Dois tipos de amor: o puro, quando é o desejo da beleza por si só, e o misto, quando tende também à união carnal (1, 10-14).

2. Gênese do amor: o amor nasce da tendência instintiva da alma para a Beleza e o Bem, e nasce com ou sem desejo de procriar, com ou sem reminiscência (1, 14-38).

3. Subdivisão dos dois tipos de amor e avaliação dos quatro tipos resultantes. Em ordem decrescente (1, 38-65):

a) amor puro com reminiscência,

b) amor puro sem reminiscência,

c) amor misto, mas conforme à natureza,

d) amor misto e, além disso, contrário à natureza.

III. O AMOR COMO DEUS E COMO DEMÔNIO (cap. 2-4).

1. Problemas exegéticos. Quem é Afrodite? Como nasceu o Amor? Nasceu de Afrodite ou com Afrodite? Ou de Afrodite e com Afrodite ao mesmo tempo? (2, 1-14).

2. Duas Afrodites: a celestial e a vulgar (2, 14-19).

3. O Amor como deus: é filho da Afrodite celestial, ou seja, da Alma superior; é uma realidade substancial e um intermediário, à maneira de um olho, nascido da contemplação da Alma intelectiva (2, 19-3, 27).

4. O Amor como demônio (3, 27-4, 9):

a) No cosmos: é filho da outra Afrodite, ou seja, da Alma do cosmos, e é também como um olho, nascido da visão dessa Alma (3, 27-38).

b) Nas almas individuais: é também uma realidade substancial e, no homem, é o demônio que acompanha cada um (4, 1-9).

5. Conclusão: há correlação entre a Alma total e o Amor total; entre as almas particulares e os amores particulares; entre a unimultiplicidade da Alma, a do Amor e a de Afrodite, e entre a dualidade do Amor (deus e demônio) na Alma total e a dualidade correspondente nas almas particulares (4, 9-25).

IV. O AMOR COMO DEMÔNIO NO MITO DO «BANQUETE» (capítulos 5-9).

1. Problema: qual é a natureza dos demônios em geral? (5, 1-4).

2. O Amor não se identifica com o cosmos (5, 5-21).

3. Diferença entre os deuses e os demônios (6, 1-24) e entre o Amor e os demônios (6, 24-45).

4. Os progenitores do Amor são Poros, como «Razão» transcendente, e Penia, como anseio indeterminado da Alma (7, 1-9).

5. Natureza ambígua do Amor como mistura de desamparo, herdado de Penia, e de riqueza de recursos, herdada de Poros (7, 9-25).

6. A mesma análise é aplicável aos outros demônios (7, 26-30).

7. Amores e demônios nas almas individuais (7, 39-49) e analogia das intelecções (7, 49-58).

8. Zeus é um símbolo do Intelecto, assim como Afrodite o é da Alma (cap. 8).

9. Poros, o jardim de Zeus e o néctar são outros tantos símbolos do Logos unimúltiplo da Alma emanado da Inteligência (9, 1-23).

10. A função do mito em geral e sua aplicação ao mito do nascimento do Amor em particular (9, 24-39).

11. Recapitulação: o Amor é filho de Poros como forma e de Penia como matéria; é um demônio nascido da Alma na medida em que esta é desprovida do Bem, mas dele anseia (9, 39-57).

Armstrong

APE

O amor é um deus, um espírito ou um afeto da alma? Discussão sobre o amor como um afeto da alma (cap. 1). O amor como um deus. Ele nasce de Afrodite ou junto com ela? As duas Afrodites, a celestial e a deusa do matrimônio: a Afrodite celestial é o tipo mais divino de alma e gera o Amor apropriado (cap. 2). O amor é uma realidade substancial; como ele surge a partir da visão da alma. A Afrodite inferior é a alma do universo e produz seu próprio amor (cap. 3). Cada alma individual tem seu próprio amor, relacionado ao amor universal da mesma forma que as almas individuais se relacionam com a Alma universal: o amor superior é um deus, o inferior, um espírito (cap. 4). O Amor que é um espírito não é o universo físico, como alguns pensam (cap. 5). Interpretação do mito do nascimento do Amor no Simpósio: primeiro, como os espíritos (daimones) diferem dos deuses, estando sujeitos a afetos e paixões por participarem da matéria inteligível (cap. 6). Os pais do Amor: a Abundância é uma realidade inteligível, a Pobreza é matéria inteligível, indefinida e, por isso, suscita um desejo ilimitado no Amor. Todos os espíritos têm essa dupla origem: os amores perversos, como os pensamentos falsos, não são realidades substanciais, mas afetos passivos da alma (cap. 7). Zeus e Afrodite são o Intelecto e a Alma (cap. 8). A Abundância, sua embriaguez com néctar e o “jardim” representam, de maneiras diferentes, o fluxo glorificante dos Logoi do Intelecto para a Alma. Princípios para a interpretação dos mitos: sua aplicação a este (cap. 9).

Lloyd

LPE

§1. O amor é um deus, um demônio ou um afeto da alma? O amor como um afeto da alma.

§2. O amor terreno e o amor celestial.

§3. O amor é uma substância, produto da Alma, e volta-se para o que está acima dele. O amor terreno é um produto da Alma do universo, está no mundo, diz respeito ao casamento e ao amor humano e ajuda a reconduzir a alma ao mundo superior.

§4. A alma individual também possui seus próprios amores, relacionados aos Amores universais e responsáveis pelo desejo pelo que é belo e bom. O superior é um deus, o inferior um demônio.

§5. Este demônio não é idêntico ao universo.

§6. O amor como filho da Abundância e da Pobreza. A diferença entre deuses e demônios: os primeiros são desprovidos de afetos, os segundos possuem afetos e ocupam uma posição intermediária entre os homens e os deuses.

§7. O amor terreno é anterior à terra e é um ser misto, racional e irracional, com um desejo que nunca é satisfeito, mas que conduz ao Bem. O amor que é contrário à natureza é um estado patológico (de afetos passivos).

§8. Zeus (Simpósio) é o Intelecto, se levarmos em conta o Fedro e o Filebo. Afrodite é a Alma.

§9. A Abundância, que está ligada à Alma, é o “jardim” de Zeus, que deve ser interpretado como os princípios expressos (λόγοι) que fluem do inteligível. Mitos como este expressam, em sequência temporalmente separada, Seres que, em si mesmos, estão juntos.

Guthrie

Capítulo 1: Amor enquanto deus, guardião e paixão

  • Amor passional é duplo
  • Amor é reconhecimento de afinidade oculta
  • Beleza terrena é uma imagem da beleza inteligível
  • A Beleza é imortal
  • Amor passional pode ser elevador embora aberto a tentações enganadoras

Capítulo 2: O mito platônico do amor

  • Interpretação do mito platônico
  • Amor, como alma superior, ou luz, é inseparável de sua fonte
  • Quem é a Vênus celestial

Capítulo 3: O Amor possui o ser divino

  • Amor celestial deve residir no inteligível com a alma celestial
  • Há um amor inferior, correspondendo à alma do mundo

Capítulo 4: Todas as almas têm seu amor, que seu guardião

  • O amor superior é divindade, o inferior é um guardião

Capítulo 5: É um erro considerar o amor como idêntico com o mundo

Capítulo 6: Todos os guardiões nascem da necessidade e abundância

  • Diferença entre divindades e guardiões
  • Um guardião é um vestígio de uma alma que desce ao mundo
  • Porque todos os guardiões não são amores
  • Porque os guardiões não estão livres da matéria

Capítulo 7: A alma é uma mistura de razão e indeterminação

  • Amor é um moscardo
  • Guardiões, assim como homens, são pressionados pelo descontentamento divino
  • Pensar justo possui existência real

Capítulo 8: Júpiter, o grande chefe, ou terceiro deus. É a alma ou Vênus

Capítulo 9: O jardim de Júpiter é a razão frutífera que gera todo objeto

Capítulo 10: O objeto dos mitos é analisar, e distinguir

  • Significação do mito platônico do jardim de Júpiter
  • Significação do mito platônico do nascimento do amor
  • O Amor é tanto material quanto um guardião

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