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Atos da Alma

Ennéades (tr. Bouillet)

IX. Todas as almas realizam os mesmos atos, ou as almas universais produzem atos perfeitos, e as outras almas, atos conformes à categoria que foi designada a cada uma delas?

Segundo os Estoicos, não há senão uma única razão (eis lógos) para as almas universais e as almas particulares; o seu entendimento é absolutamente o mesmo, os seus atos retos (katorthómata) são iguais e as suas virtudes idênticas. Plotino em geral e Amelios parecem professar a mesma opinião: pois dizem ora que a alma particular difere da alma universal, ora que se lhe assemelha. Segundo Porfírio, ao contrário, há uma grande distância entre as funções da alma universal e as da alma particular.

Haveria ainda uma outra opinião que mereceria ser tomada em consideração: dividindo os atos conforme os gêneros e as espécies das almas, ela ensina que os atos das almas universais são perfeitos; os das almas divinas, puros e imateriais; os das almas demoníacas, eficazes; os das almas heroicas, grandes; os das almas dos animais e dos homens, perecíveis, seguindo para os outros entes as leis da analogia. Estabelecida esta divisão, dela se deduzem as consequências. Com efeito, quando se admite que por toda parte está espalhada uma Alma que é uma e idêntica pelo gênero e pela espécie, como afirma Plotino, ou bem uma e idêntica numericamente, como Amelios avança com bastante leveza em diversas passagens de seus escritos, diz-se que a alma é idêntica aos seus atos (ten psykhen einai haper energei). Mas aqueles que possuem um sistema mais sábio distinguem na processão das essências da alma um primeiro, um segundo e um terceiro graus; professando uma opinião nova, mas mais sólida, admitem que os atos das almas universais, divinas, imateriais, respondem plenamente à sua essência; mas negam formalmente que as almas particulares, encerradas em uma só espécie e divididas nos corpos, sejam imediatamente idênticas aos seus atos. Daí decorre uma divisão que está em harmonia com estes princípios: afirmo, para exprimir-me conforme esta nova doutrina, que os atos perfeitos, simples e separados da matéria são inerentes às faculdades que os produzem, e que os atos das almas imperfeitas e divididas na terra se assemelham aos frutos produzidos pelas plantas.

Ademais, cumpre observar que os Estoicos concedem aos entes inanimados e administrados [pela alma] todas as funções de uma alma qualquer. Os Platonistas não fazem o mesmo: pois ensinam que certas faculdades da alma, tais como a Sensibilidade e o Apetite, se ligam ao corpo que lhes serve de matéria, mas que as faculdades que são puras, tais como a Inteligência, de modo algum se servem do corpo. Platão não considera como inerentes ao corpo por sua essência os atos das faculdades corpóreas, mas diz que se lhe tornam comuns com a alma pela conversão da alma para o corpo. Quanto aos atos das faculdades separadas do corpo, admite que não possuem nenhuma relação com ele. Com efeito, conforme este filósofo, os atos da alma universal e divina são isentos de toda mistura com o corpo devido à pureza de sua essência, mas os atos da alma particular e unida à matéria não são puros como os da precedente; os atos da alma que remonta [ao mundo inteligível] e que se liberta da geração cessam de se reportar ao corpo, mas os da alma que desce [ao mundo sensível] estão ligados e acorrentados ao corpo de diversas maneiras; a alma que possui por veículo (ókhema) um espírito puro recebe por ele facilmente o que lhe vem do alto e produz os seus atos sem nenhuma fadiga, mas os atos da alma que é semeada e contida em um corpo sólido contraem a natureza corpórea; enfim, os atos da alma universal convertem para si mesmos o corpo que administram, enquanto os atos da alma particular se convertem eles mesmos para o corpo do qual cuidam.

Para reproduzir estas distinções sob uma outra forma, os Peripatéticos não atribuem os atos da alma senão ao animal (isto é, ao composto da alma e do corpo). Platão, ao contrário, começa por reportar à alma todos os atos, depois determina aqueles que lhe são comuns com o animal. Pitágoras e Platão, fundando-se sobre este princípio de que a essência da alma é superior à natureza [isto é, à potência vegetativa e generativa] e a engendra, reportam-lhe os atos mais elevados e mais importantes; ensinam que ela não possui a natureza por princípio, mas que é o seu próprio princípio, que governa por si mesma e em si mesma as suas próprias funções, enfim que todos os movimentos que são nobres, belos, superiores à natureza, pertencem exclusivamente à alma.

Os Platonistas mesmos diferem entre si de opinião: uns, como Plotino e Porfírio, reportam a uma só ordem e a uma só ideia as funções, as faculdades e as diversas espécies de vida; outros, como Numenius, opõem-nas para a luta; outros, enfim, como Atticus e Plutarkhos [de Queroneia], da luta fazem brotar a harmonia.

Os Platonistas dizem ainda que as almas, arrastadas primitivamente por movimentos desordenados e culpáveis, entraram em corpos para comunicar a ordem e a beleza àquilo que está abaixo delas; é desta maneira que estabelecem a harmonia entre as almas e os corpos. Quanto à causa que determinou as almas a fazerem descer a sua ação [sobre a matéria], é, segundo Plotino, a primeira diversidade; segundo Empedócles, o primeiro afastamento de Deus; segundo Herakleitos, o [desejo de encontrar o] repouso na mudança; segundo os Gnósticos, a loucura ou o extravio; enfim, segundo Albinus, o erro do livre-arbítrio. Os primeiros estão, aliás, em desacordo com os últimos sobre um outro ponto: atribuem como origem ao mal que a Alma faz e sofre as coisas que a cercam e se ligam a ela, seja a matéria, como dizem frequentemente Numenius e Kronius, seja o corpo, como escreve por vezes Harpokration, seja a natureza e a vida irracional, como Plotino e Porfírio afirmam em uma multidão de passagens.

Segundo Aristóteles, os entes desprovidos de razão diferem do homem por suas faculdades e seus outros caracteres. Segundo os Estoicos, as funções da vida comunicadas aos entes são cada vez mais imperfeitas e, quanto mais se aproximam da natureza irracional, mais são incompletas em relação às funções superiores.

Enfim, como ouvi dizer a certos Platonistas, tais como Porfírio e muitos outros, os atos do homem tornam-se semelhantes aos do bruto, e os do bruto tornam-se semelhantes aos do homem, tanto quanto coisas que possuem uma essência diferente podem tornar-se semelhantes umas às outras.

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