Estudo da Alma
II. 1° Alguns reconduzem a natureza da alma aos princípios dos quatro elementos. Segundo estes, os corpos primeiros são indivisíveis, mais elementares que os próprios elementos; não sendo misturados, estando, ademais, preenchidos unicamente pela primeira substância, que é pura, não são divisíveis de modo algum; possuem uma infinidade de figuras, entre as quais se encontra a figura esferoide; ora, a alma é composta de atomoi esferoides.
2° Conforme o que ensinam certos Peripatéticos, a alma é a forma do corpo, ou uma qualidade simples e incorpórea, ou uma qualidade substancial e perfeita. Uma opinião análoga, opinião que, embora não provenha dos antigos, constitui todavia uma seita particular, é aquela que faz consistir a alma no concurso (syndromé) de todas as qualidades, naquilo que há de principal nelas e que lhes é ou posterior, ou anterior.
3° Enumeremos agora, distinguindo-os uns dos outros, aqueles que dão à alma uma essência matemática [isto é, uma essência intermediária entre a essência sensível e a essência inteligível].
A. A primeira espécie de essência matemática é a figura (skhema), que é o limite da extensão e a própria extensão. Entre os que professam esta opinião, conta-se o platonista Severus. Speusippe coloca a essência da alma na ideia do que é estendido em todo sentido. Seria mais razoável fazer consistir a alma pura na causa destas coisas [da extensão e da figura], ou naquilo que as une.
B. A outra espécie de essência matemática é o número. Alguns dos Pitagóricos afirmam simplesmente que « a alma é um número »; Xenocrates acrescenta: « que se move a si mesmo »; o pitagórico Moderatus: « que encerra as razões »; Hippasus, auditor dos Pitagóricos: « que é o órgão racional do Deus criador do mundo (kritikón kosmourgou theou órganon). »
Segundo Aristóteles, Platão compõe o animal em si [o mundo inteligível] da ideia do um, assim como das primeiras longitude, largura e profundidade, e diz que a unidade é a Inteligência, que o número dois é a Ciência, que o número da superfície é a Opinião, e que o do sólido é a Sensação.
C. Examinemos agora a harmonia, não aquela que é fundada sobre os corpos [que resulta da mistura dos elementos], mas a que se chama harmonia matemática [a harmonia própria à essência que é intermediária entre a essência sensível e a essência inteligível].
Moderatus atribui à Alma [do mundo] esta espécie de harmonia que estabelece o acordo e a amizade entre os contrários; Timeu [em Platão], aquela que, nas essências, nas vidas e em sua geração, serve de termo médio e de liame. Plotino, Porfírio e Amelios ensinaram que a harmonia consiste nas razões que contém a essência da Alma (en lógois tois kat ousían proypárkhousin). Enfim, um grande número de Platonistas e de Pitagóricos são de opinião que a harmonia é unida ao mundo e inseparável do céu.
4° Passemos agora à natureza incorpórea, e examinemos com ordem todas as opiniões que foram emitidas a este respeito. Há filósofos que creem que a essência da Alma universal tem todas as suas partes semelhantes a si mesma, que ela é uma e idêntica, de sorte que está inteira em cada uma de suas partes.
Colocam na alma particular mesma o mundo inteligível, os deuses e os demônios, o Bem e tudo o que há de mais elevado no universo; ensinam assim que tudo está em todos os entes, mas segundo a natureza própria de cada um deles. Numenius professa esta opinião em toda a sua extensão, Plotino com alguma restrição, Amelios com inconstância, Porfírio com hesitação: pois ora a abandona nitidamente, ora a segue como uma tradição. Segundo esta opinião, a Alma, em sua essência total, em nada difere da Inteligência, dos deuses e dos entes superiores.
Uma doutrina que é oposta à precedente separa a Alma e a Inteligência: faz da Alma uma natureza inferior, nascida da Inteligência, mas distinta dela, neste sentido que a parte da Alma que está abaixo da Inteligência dela depende, mas possui uma existência própria. Esta mesma doutrina separa igualmente a Alma e todos os entes superiores; atribui-lhe uma natureza própria, definindo-a seja como a Essência intermediária entre os corpos que são divisíveis e os gêneros de entes que são indivisíveis, seja como a Plenitude das razões universais e a Potência demiúrgica inferior às ideias, seja como a Vida que vive por si mesma e provém do mundo inteligível e dos gêneros imutáveis, seja como a Processão do ente verdadeiro e universal para uma essência menos perfeita. Pitágoras, Platão, Aristóteles, todos os antigos que adquiriram renome por sua sabedoria, são realmente por esta doutrina, se se aprofundam suas opiniões de uma maneira científica. Quanto a nós, intentaremos compor sobre estas opiniões um Tratado que faça conhecer a verdade.
Alguns dos Físicos compõem a alma pela combinação dos contrários, do quente e do frio, do seco e do úmido: pretendem que a vida (to zen) deve seu nome ao fato de ser posta em ebulição pelo calor (apó to anazein ypó tou thermou), e a alma (psykhe), ao fato de ser refrescada pelo frio (psykos); creem que em ambos os casos a alma é o ar que se respira, como o diz Aristóteles ao citar os versos de Orpheus sobre a natureza, segundo o qual « a alma vem do universo e entra em nós, quando respiramos, trazida pelos ventos. » Orpheus mesmo parece pensar que não existe senão uma única Alma, a qual se divide em uma multidão de partes, de sorte que as rimas particulares recebem, ao respirar, os sopros múltiplos e intermediários (pollai kai mésai epínoiai) emanados da Alma universal.
Alguns dos Peripatéticos fazem da alma um corpo etéreo; outros a definem seja como « a perfeição da essência do corpo divino », perfeição que Aristóteles chama entelékheia, como o diz Theophrastos em alguns de seus escritos, seja como « o que é engendrado pelos gêneros universais divinos (to apogennómenon apó ton theotéron genon hólon) », como o concebem certos modernos, seja como « o que forma um misto com o corpo », como ensinam os Estoicos, seja como « o que é misturado à natureza », seja como « o que é algo do corpo (a qualidade que possui de ser animado), mas que não constitui uma substância independente do corpo », como o pretende Dikéarkhos o messênio.
