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Conexão da alma humana ao Bem

  • Contextualização do problema específico da imortalidade do veículo da alma na filosofia de Jâmblico, em contraste com as posições de Porfírio e Proclo.
  • Formulação das questões centrais que direcionam a investigação: razão da singularidade da opinião de Jâmblico e destino final do veículo após a separação da alma racional.
  • Necessidade de estudos preliminares sobre os *grandes gêneros* e a descida da alma como fundamento para a resolução das questões propostas.
  • Definição e enumeração dos grandes gêneros no sistema jambliqueano.
    • Categorias principais: deuses (encósmicos e hipercósmicos), arcanjos, anjos, demônios, heróis, arcontes e almas purificadas.
    • Função primordial: povoar o reino encósmico com entidades intermediárias, estabelecendo simultaneamente separação e conexão vital entre humanos e deuses.
  • Posição ontológica dos grandes gêneros na hierarquia do real.
    • Análise do Fragmento 2 do *In Parmenidem*: os grandes gêneros situam-se na terceira hipótese, distinta da quarta hipótese, reservada às almas racionais humanas.
    • Consequência: os grandes gêneros constituem ordem de realidade superior e diferente da alma humana, possuindo veículo etéreo mas relação distinta com ele.
  • Características comuns a todos os grandes gêneros em relação aos seus veículos.
    • Separação e exterioridade: as entidades não existem *nos* corpos, mas os regem *desde fora* (ἔξωθεν).
    • Primazia da entidade sobre o veículo: os corpos são *cercados* e *montados* pelas vidas e energias divinas, não os contrário.
    • Impassibilidade e ausência de impedimento: o veículo não obstrui as intelecções nem causa perda à natureza da entidade.
  • Diferenciação interna entre as almas dos vários grandes gêneros.
    • Princípio hierárquico: a relação entre alma e veículo deteriora-se progressivamente conforme se desce na escala dos gêneros.
    • Distinção pelos atos (ἔργα): atos perfeitos das almas universais, puros e imateriais das divinas, ativos dos demônios, grandes dos heróis, de natureza mortal de homens e animais.
    • Doutrina das processões (πρόοδοι) a partir da *cratera* do *Timeu*: almas mais elevadas emanam das primeiras processões, as humanas das processões posteriores.
    • Conceito de *medidas de coesão* (μέτρα τῆς συνοχῆς) atribuídas a cada alma conforme seu posto na processão a partir da cratera.
  • Interpretação da hierarquia em *De Mysteriis* I, 5, rejeitando leitura hermetizante.
    • Identificação do *Bem além da essência* (ἐπέκεινα τῆς οὐσίας) com o Um Inefável (παντελῶς ἄρρητον) ou o Um Puro (τὸ ἁπλῶς ἕν).
    • Identificação do *Bem segundo a essência* (κατ’ οὐσίαν ὑπάρχον) ou *Bem essencial* com o Um Existente (τὸ ὂν ἕν), momento limiar entre o reino do Um e o reino noético.
  • Modos diferenciados de participação no Bem essencial.
    • Participação direta e uniforme: característica exclusiva dos grandes gêneros (deuses, demônios, heróis), para os quais o Bem essencial é *propriedade especial* (ἰδίωμα ἐξαίρετον).
    • Participação indireta e deficiente: própria das almas humanas, que possuem mera *retenção* (ἐποχή) e *posse* (ἕξις) do Bem, não participação plena.
  • Hierarquia interna dos grandes gêneros baseada na proximidade ao Um.
    • Deuses visíveis (encósmicos): unidos imediatamente aos deuses invisíveis (noéticos) e, através deles, ao Bem essencial.
    • Demônios: suspensos dos deuses, mas inferiores a eles, envolvidos com a geração (τῇ γενεσιουργῷ φύσει).
    • Heróis: excelendo completamente as almas humanas, ligados a estas por afinidade vital, mas abaixo dos demônios.
    • Função mediadora e de completude: demônios e heróis realizam o vínculo (συνέχειαν) entre deuses e almas, assegurando continuidade e harmonia na processão e na ascensão.
  • Corolário metafísico: a influência de um princípio superior, embora mais penetrante, enfraquece-se proporcionalmente ao grau de separação do ente receptor.
    • Aplicação: a efetividade do Bem essencial diminui conforme se desce na escala dos gêneros, explicando a necessidade de intermediação para as almas humanas.
  • Natureza imutável e perfeita do veículo etéreo em si mesmo.
    • Eternidade e incorruptibilidade: o veículo, obra do Demiurgo, é ingênito, imune a oposição (ἐναντίωσις) e a mudança qualitativa (τροπή, μεταβάλλειν).
    • Movimento natural circular (κατὰ κύκλον περιφέρεται): imitação do movimento celeste, condição apropriada para a intelecção.
    • Resistência a alterações provenientes do mundo gerado: o veículo não se transforma *em si mesmo* (εἰς ἑαυτά) por influências materiais externas.
  • Mecanismo da contaminação e do revestimento material.
    • Diferença entre alteração interna e aderência externa: embora não mude em sua substância, o veículo pode ser *afetado* por substâncias materiais que a ele aderem.
    • Gradação da comistura (σύμμῖξις) material conforme a classe da alma: vapores sublunares com demônios, *pneumata* genesiourgicos com heróis, fluidos materiais com arcontes hílicos.
    • Cobertura corpórea humana: acúmulo de manchas excessivas e *pneumata* estranhos (ἀλλοτρίων πνευμάτων), que constituem o corpo físico.
  • Efeitos nocivos do corpo material sobre a alma humana.
    • Impedimento à intelecção, peso, poluição (βαρύτης καὶ μίασμῶν), morbidez (νοσήματα) e luxúria (ἡδυπάθεια).
    • Causa última: a natureza contraditória e parcial (μαχομένως καὶ μεριστῶς) da matéria em receber as emanações imateriais e etéreas dos deuses.
    • Distorção da participação: a matéria, ao aderir ao veículo, impede a alma de participar do Bem da maneira apropriada ao seu posto hierárquico.
  • Dupla função da purificação teúrgica.
    • Remoção da contaminação material aderente ao veículo, limpando as manchas que obstruem a conexão com o divino.
    • Recondução da alma ao seu estado próprio, permitindo-lhe participar do Bem essencial através dos intermediários divinos (grandes gêneros).
    • Capacitação para o retorno à encarnação sem corrupção, conforme atestado para almas já purificadas.
  • Resposta à primeira questão: a imortalidade do veículo em Jâmblico é coerente com seu sistema teúrgico e hierárquico.
    • O veículo, como entidade etérea e perfeita, subsiste como substrato eterno necessário para a intermediação e a purificação.
    • Sua permanência intacta após a separação da alma racional é condição de possibilidade para os processos de ascensão e possível reencarnação purificada.
  • Resposta à segunda questão: o destino do veículo separado.
    • O veículo, liberado da alma racional, permanece no cosmos como entidade pertencente à ordem dos grandes gêneros, ainda que sem sua função plena.
    • Não se dispersa (contra Porfírio) nem permanece eternamente ligado a uma alma racional (contra Proclo), mas subsiste como receptáculo potencialmente habitável por outras formas de vida psíquica ou como veículo de almas purificadas em trânsito.
    • Sua existência contínua preenche o cosmos etéreo, integrando-se à economia divina de mediação e sustentação da ordem encósmica.
  • Conclusão geral: a doutrina jambliqueana do veículo é inextricável de sua metafísica hierárquica e de sua teurgia.
    • A hierarquia dos grandes gêneros, os graus de participação no Bem e a necessidade de purificação explicam tanto a singularidade de sua posição quanto o papel funcional do veículo imortal no sistema cósmico e soteriológico.
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