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Aristóteles, da alma

PHILOPONUS, John. On Aristotle’s “On the soul 2.1-6”. Tradução: William Charlton. Ithaca, N.Y: Cornell University Press, 2005.

Prefácio de Richard Sorabji

Filópono, no século VI d.C., escreve um comentário sobre Da Alma 2.1–6 de Aristóteles, onde este oferece uma concepção da alma radicalmente distinta da platônica — entendendo-a como o conjunto de capacidades manifestadoras de vida que distinguem os seres vivos e explicam seu comportamento, definindo-a em estreita ligação com o corpo como sua forma.

  • As capacidades definidoras da alma aristotélica distribuem-se por três níveis: uso do alimento para manter a estrutura e reproduzir (disponível até às plantas), percepção e desejo (exclusivos dos animais) e pensamento racional (reservado aos humanos).
  • As capacidades devem ser definidas por sua operação ativa, e esta por referência aos objetos a que se dirige; os cinco sentidos são definidos pelos seus objetos — percepção de cor, som etc. —, mas é ao perceber esses objetos que se percebem também outros, como tamanho e forma, mediante mais de um sentido.

A questão da percepção das formas sensíveis “sem matéria” gera uma divergência interpretativa central entre Filópono e outras leituras de Aristóteles.

  • Numa interpretação, o olho absorve manchas de cor, mas não partículas materiais, da cena percebida.
  • Filópono discorda: a recepção da forma sensível não é uma alteração fisiológica (por exemplo, no humor vítreo do olho), mas apenas uma recepção cognitiva (gnostikos, 303,5–6; 309,15–29); a expressão “sem matéria” não exclui a recepção de partículas, mas diz que o sentido não age como a cera recebendo uma impressão — ele recebe as qualidades sensíveis de modo não físico.
  • Franz Brentano compreendeu Aristóteles em espírito igualmente não fisiológico, antecipando a ideia de que as coisas percebidas são apenas objetos intencionais — na terminologia medieval que ele tornou familiar —, não precisando existir na realidade para servir como objetos.
  • Myles Burnyeat apresentou os argumentos mais poderosos em favor de uma versão dessa interpretação não fisiológica, tendo Filópono como patrono; Sorabji, por sua vez, argumentou que os comentaristas foram gradualmente forçados a reinterpretar Aristóteles à medida que sua narrativa fisiológica encontrava dificuldades no choque entre diferentes formas sensíveis no ato da recepção.

A afirmação de Aristóteles em Da Alma 2.1 (413a8–9) de que ainda não é claro se a alma é para o corpo como o marinheiro é para o navio suscita controvérsia sobre a possibilidade de existência independente da alma.

  • Alexandre de Afrodísia (c. 200 d.C.), o último grande comentarista da escola aristotélica, substituiu “marinheiro” por “arte da navegação” (DA 15,10) ao negar essa existência independente para a alma.
  • Temístio (DA 43,30–5), “Simplício” (DA 96,3–10) e Filópono (DA 224,28–37; cf. 241,27–8; 242,18–19) admitem a existência independente e entendem que a concessão de Aristóteles diz respeito à parte intelectual da alma humana — aquela que sobrevive à morte do corpo.
  • Filópono explica que o intelecto é como o navegador: enquanto exerce as atividades de navegador, não as pode exercer separado do navio, mas enquanto ser humano é algo separado do navio e pode separar-se dele — e o mesmo vale para o intelecto humano.

A questão de se os animais podem perceber fatos e objetos físicos sem possuir razão opõe Aristóteles a Platão e gera uma tomada de posição explícita de Filópono.

  • Aristóteles (Ética Nicomaqueia 3.10, 1118a20–3) admite que o leão percebe que o boi está próximo — sem que isso implique faculdade racional.
  • Isso o opõe à visão do Teeteto de Platão (186B–187A), segundo a qual o ser (ousia) deve ser apreendido não pela percepção, mas pela razão e pela crença.
  • Fiel a Aristóteles (317,25–32), Filópono afirma que o cão reconhece seu dono pela percepção, não pela razão, pois o conhece não como um ser (ousia — palavra platônica no Teeteto), mas como uma determinada forma amigável; Filópono acrescenta a Aristóteles a referência à amizade e hostilidade como conteúdo armazenado, bem como à imaginação (phantasia) como o lugar onde as impressões são guardadas.
  • Filópono conhecia muito bem a obra de Alexandre: um sinal disso é sua incorporação, na interpretação de Aristóteles, da concepção antiplatônica de Alexandre sobre os universais como construções da mente (307,35; cf. Alexandre DA 90,2–11; Quaestio 2.28).
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