Cosmos Sensível
HLADKÝ, Vojtěch. The philosophy of Gemistos Plethon: Platonism in late Byzantium, between Hellenism and orthodoxy. Farnham: Ashgate, 2014.
O cosmos sensível foi criado como imagem da ordem inteligível das Formas sob a liderança de Posêidon, que, imitando o primeiro princípio, produziu os deuses de “terceira natureza” e os colocou dentro do céu.
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Os corpos celestes, criados pelas Formas que por sua vez foram criadas pelo primeiro princípio, são chamados de “filhos dos filhos de Zeus” e “obras de suas obras”.
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Esses deuses de terceira ordem “sustentam e ao mesmo tempo ordenam” o céu ao observá-lo de perto, sendo “compostos de corpo e alma”.
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Por causa dos corpos que lhes são agregados, esses deuses são determinados por lugar e posição.
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Plethon distingue ainda o intelecto (nous) dentro da alma do Sol — distinção aparentemente aplicável a todas as almas em geral.
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A alma do Sol foi criada por Zeus e transmitida à estrela mais elevada com a ajuda de Posêidon, que é o criador da alma solar; Hera é a produtora de seu corpo.
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Posêidon subordinou o corpo solar à alma e a alma ao intelecto.
O Sol serve de fronteira comum (horos ou péras) e vínculo (syndésmos) entre as Formas e o mundo sensível, numa posição análoga à de Posêidon na ordem inteligível — o primeiro entre os inteligíveis e soberano de todo o céu.
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O intelecto do Sol não está mais separado do mundo sensível do que as Formas inteligíveis, sendo por ele participado (methektós).
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A diferença entre os dois tipos de intelecto — separado e participado — consiste em que o participado não pode agir sobre algo diferente sem a mediação de um corpo.
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O mesmo vale para os demais intelectos participados pelas almas no mundo sensível, incluindo o intelecto humano.
Para criar o céu do cosmos sensível, Posêidon usa a si mesmo e toda a essência inteligível — “separada da matéria em todo sentido e completamente” — como modelo, criando formas das coisas sensíveis fundamentadas na matéria.
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As formas sensíveis são imagens das Formas contidas na ordem inteligível, assemelhadas a elas.
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A matéria é fornecida pela olímpica Hera (para as coisas eternas) e pela Titã Afrodite (para as perecíveis).
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Dois gêneros de coisas sensíveis são produzidos: o inferior, inteiramente inseparável da matéria e igual a todas as espécies não racionais; e o superior, que não está preso à matéria, mas tem a matéria presa a si — separado em potência, não em ato, e por isso mais afim à essência das Formas supracelestiais.
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Todas essas propriedades do gênero superior pertencem à alma racional, em contraste com os seres não racionais.
Os seres dotados de alma racional dividem-se em três gêneros segundo a precisão de seu conhecimento.
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O primeiro — o gênero celeste legítimo das estrelas — possui o conhecimento próprio de tudo.
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O segundo — o gênero ilegítimo e terrestre dos daimons — possui a opinião correta sobre tudo, sem ser capaz de atingir o conhecimento próprio; representa o gênero mais baixo dos deuses, a serviço dos superiores.
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O terceiro e mais baixo — a alma humana, logo abaixo dos daimons — é o gênero falível, não sendo “descendência própria” de Zeus.
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As almas humanas são ordenadas pelas almas divinas superiores, embora procedam da mesma fonte e partilhem com elas uma essência eterna.
O gênero dos seres não racionais é constituído dos quatro tipos “mais antigos” de corpos — os quatro elementos (fogo, ar, água e terra) — que juntos formam o “corpo” inteiro do mundo visível.
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No tratado Diferenças, Plethon argumenta contra Aristóteles e em defesa dos platônicos, afirmando que existem apenas quatro elementos, não cinco — rejeitando o éter como quinto elemento.
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Fogo e terra ocupam extremos opostos: o fogo é o mais leve (por sua raridade de textura) e está em perpétuo movimento; a terra é a mais pesada (por sua densidade) e é imóvel.
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Ar e água ocupam a posição intermediária, tanto em leveza/densidade quanto em movimento e repouso.
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Por seu movimento perpétuo, o fogo só pode mover-se em círculo, pois tudo que se move em linha reta deve parar em algum momento — e disso é feito o éter e todo o corpo superior propriamente chamado de céu.
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Plethon rejeita a objeção aristotélica de que o fogo se move apenas em linha reta, argumentando que isso ocorre somente quando retorna ao seu lugar próprio (oikeios topos).
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Os platônicos negam que qualquer corpo — nem mesmo o das estrelas — seja por si mesmo indestrutível, pois todo corpo é divisível, dispersível e dissolúvel; os corpos considerados indestrutíveis o são pela presença da alma, que os “imortalizou”.
Os deuses de terceira ordem (estrelas e daimons), assim como a alma humana, pertencem ao cosmos sensível e precisam ser colocados em um corpo adequado — as almas são postas em “veículos” (ochémata) feitos do elemento mais belo, o fogo.
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Os veículos das estrelas são feitos de fogo brilhante e flamejante; os veículos dos daimons e das almas humanas são feitos de fogo invisível e etéreo.
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Os veículos das estrelas são ontologicamente superiores e brilhantes por causa da quantidade de potencialidade ativa neles.
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Os corpos dos três gêneros de seres imortais e racionais são chamados de “sem velhice” (agérea) e “imaculados” (akérata), sendo o segundo atributo derivado do fato de serem feitos de fogo puro.
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A matéria das estrelas, sendo de qualidade superior à dos daimons e das almas humanas, é paradoxalmente mais visível — possivelmente porque o fogo estelar é tanto brilhante quanto quente, enquanto o dos daimons e humanos é apenas quente e não mais visível.
O cosmos deve ser, primeiro, eterno juntamente com Zeus e, segundo, o mais belo possível — permanecendo para sempre no mesmo estado, sem poder alterar a forma que lhe foi atribuída.
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O conceito tradicional platônico de bonum diffusivum sui afirma que o bem supremo, por sua bondade, não pode abster-se de criar algo diferente mas semelhante a si mesmo — fundamento desta doutrina.
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Se Zeus mudasse algo do estabelecido, tornaria o universo pior, pois mesmo que uma partícula mude, é impossível que toda a forma do universo não mude junto.
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No cosmos eterno, períodos semelhantes assim como “vidas” e “ações” repetem-se indefinidamente — nada de novo pode acontecer.
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A preservação do universo como um todo exige que todas as suas partes permaneçam no mesmo estado.
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O universo pode mudar, mas desde que seu produtor seja bom, não pode desviar-se das leis naturais que determinam os processos regulares — o que abre caminho para a doutrina plethoniana do destino (heimarméne).
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O cosmos como um todo, assim como a alma humana, não pode ter começo nem fim; por ser eterno e estender-se em ambas as direções, é simplesmente “muito mais perfeito e belo”.
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O universo, junto com a alma, deve ser co-eterno com o princípio pelo qual ambos foram criados.
Estrelas e Daimons
Na filosofia de Plethon, o Sol e a Lua formam um par análogo ao de Posêidon e Hera entre os Olímpicos e ao de Cronos e Afrodite entre os Titãs.
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O Sol ocupa posição eminente entre as estrelas e as coisas sensíveis por ser a fronteira e o vínculo entre o mundo sensível e o inteligível.
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Junto com Cronos e os demais Titãs-Formas — menos gerais e capazes apenas de produzir coisas perecíveis —, o Sol cria toda a parte mortal do cosmos sensível.
Plethon argumenta extensamente contra a opinião — que ele associa a Aristóteles — de que as Formas das coisas mortais estariam no intelecto do Sol e não subsistiriam por si mesmas.
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Nessa concepção, o Sol produziria cada coisa mortal como os artesãos têm em suas mentes as formas dos artefatos.
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Plethon refuta essa analogia: os artefatos avançam em sua perfeição apenas enquanto os artesãos trabalham neles; abandonados a meio caminho, não se aperfeiçoam, pois “os artesãos levaram consigo não apenas suas mãos, mas também seus modelos”.
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Em contraste, as coisas produzidas pela natureza não se aperfeiçoam ou vivem dependendo da aproximação ou afastamento do Sol — se fosse assim, nada se aperfeiçoaria durante a noite, o que é refutado pela observação de que plantas e frutos frequentemente amadurecem à noite.
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Plethon também rejeita a possibilidade de que apenas o intelecto do Sol, sem seu corpo, produza tal efeito — os intelectos participados pelo corpo não podem agir sobre outros corpos na ausência do corpo a eles conectado.
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Igualmente rejeitada é a hipótese de que as coisas se aperfeiçoam por si mesmas, pois nenhuma potencialidade pode passar à atualidade sem ser impelida por alguma atualidade precedente.
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A última possibilidade rejeitada é que o calor recebido do Sol seja o princípio perfeccionante — pois o princípio que aperfeiçoa deve preceder a coisa aperfeiçoada, e nenhuma afecção pode preceder a forma ou a essência; o que é acrescentado não pode preceder aquilo ao qual é acrescentado.
Dessas considerações, Plethon conclui que deve haver Formas subsistindo por si mesmas no espaço supracelestial, fora do mundo sensível.
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As Formas supracelestiais nem sempre são capazes de produzir as coisas “aqui” por sua cooperação mútua apenas: as “mais antigas” produzem o Sol, a Lua e outras coisas imortais; as Formas inferiores precisam da contribuição do Sol, da Lua e “dos deuses ao redor” para produzir o mundo sensível.
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Analogamente aos dois outros pares divinos na ordem inteligível, o Sol traz a uma coisa mortal a forma proveniente das “Formas e deuses do Tártaro”, enquanto a Lua lhe fornece matéria — sendo os mais elevados deuses masculino e feminino do céu.
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O Sol age sobre as coisas mais ativas e “formais”; a Lua age sobre as mais passivas e “materiais”.
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Quando algo produzido desse modo já adquire certa constituição, as Formas inferiores das coisas mortais são então capazes de aperfeiçoá-lo e preservá-lo por algum tempo por si mesmas.
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Cronos e as demais Formas que presidem a criação das coisas sensíveis “recebem tudo” do Sol, que é “o início de sua geração e vida”.
Os planetas são “irmãos” ou “acompanhantes” do Sol na criação das coisas mortais, administrando o mundo conjuntamente, cada um com uma patronagem sobre certos segmentos de daimons terrestres e almas humanas.
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Os planetas têm a mesma natureza tripartida dos daimons e humanos — intelecto (nous), alma (psyché) e corpo (soma) —, assegurando uma comunhão (koinonia) ou vínculo (syndésmos) entre a ordem supracelestial e o céu.
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Plethon nomeia, além do Sol: a Lua (Seléne), Vênus (Heosphóros ou Phósphoros), Mercúrio (Stílbon), Saturno (Pháinon), Júpiter (Phaéthon) e Marte (Pyróeis).
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Os “astros errantes” — planetas, e especialmente o Sol e a Lua — exercem influência (astrológica) sobre a vida humana.
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As estrelas fixas, em contraste, foram criadas apenas para “contemplar o que (realmente) existe” — muito provavelmente as Formas inteligíveis — e para louvar seu criador; comparação que remete ao Timeu de Platão, onde os planetas criam os seres mortais e os humanos devem contemplar os movimentos dos astros.
Os daimons constituem o gênero terrestre (chthónion génos daimónon) dos deuses de terceira ordem e o mais baixo de todos os deuses, sendo descritos por Plethon não como potências malignas — ao contrário da concepção cristã difundida —, mas como seres bons.
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O Oráculo Mágico XIX afirma: “A natureza persuade que os daimons são puros / e que os frutos mesmo da matéria má são úteis e bons.”
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Em seu comentário a esse Oráculo, Plethon explica que tudo que procedeu de Deus — o bem em si — deve ser bom, incluindo a matéria; e isso deve ser ainda mais verdadeiro para os daimons, que superam a matéria pelo aspecto racional de sua natureza, o intelecto, que não se mistura com a natureza mortal.
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Os corpos etéreos dos daimons são mais nobres que os humanos, e suas almas são “não misturadas com a natureza mortal”.
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O mesmo Oracle XIX, citado por Plethon nessa carta, expressa a doutrina dos daimons bons.
Nas Leis, os daimons são descritos como criaturas a serviço dos deuses superiores, próximas à natureza humana, infalíveis e sem experiência do mal.
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Por terem opinião correta sobre tudo — embora sem poder atingir o conhecimento próprio —, os daimons são, de fato, bons, e por isso, como criaturas superiores mais próximas aos humanos, são também a fonte de todo o bem humano.
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No hino dedicado a eles, Plethon enumera suas funções: alguns são responsáveis pela purificação dos humanos; outros os “conduzem para cima, guardam ou preservam”; outros ainda são capazes de “tornar reto o seu intelecto”.
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Em outra passagem das Leis, além da purificação, os daimons têm a função de “curar” (therapeutikôs) os humanos — tornando-os “bons e belos” (kaloì kagathói).
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No comentário ao Oráculo Mágico XX, Plethon esclarece que os daimons corretivos ou punitivos desviam os humanos do vício e os vinculam à virtude.
