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I, 5 SE A FELICIDADE CRESCE COM O TEMPO

Tratado 36

Brisson & Pradeau

BP

  • Porfírio editou em sequência, na primeira Enéada, os tratados 19 (I, 2) Sobre as virtudes, 20 (I, 3) Sobre a dialética, 46 (I, 4) Sobre a felicidade e 36 (I, 5) Se a felicidade aumenta com o tempo, pois esses tratados se complementam e se compreendem melhor quando lidos nessa ordem.
    • O tratado 19 introduz a doutrina plotiniana da virtude: a atividade ética e virtuosa consiste em se unir ao divino, purificando a alma para que se volte às realidades de cima e ao Intelecto.
    • O tratado 20 descreve por qual meio a alma remonta aos inteligíveis e pode se assimilar ao deus: a dialética ascendente permite à alma passar da beleza de um corpo à de todos os corpos, depois à da virtude, do Intelecto e do Ser.
    • O tratado 46 define a felicidade: Plotino reafirma e desenvolve mais a fundo a ideia de que ela reside na vida perfeita do Intelecto, imutável e eterna, e que a alma bem-aventurada, tendo reencontrado o Intelecto, não se aflige com o que ocorre no mundo sensível; que seja submetido à tortura, à pobreza, que seus amigos sejam escravizados ou seus filhos pereçam, o sábio não verá nisso grande infortúnio e não perderá uma parcela de sua felicidade.
  • O tratado 36 (I, 5) conserva a mesma concepção de felicidade e completa os tratados anteriores, medindo-se a uma questão ética antiga: o tempo faz crescer a felicidade?
    • Aristóteles liga felicidade e temporalidade, admitindo que um homem só é feliz se sua felicidade se prolonga, sendo o bem-aventurado aquele cuja felicidade persiste até a morte, conforme a Ética a Nicômaco I, 11.
    • Os estoicos estimam que o tempo que passa não faz crescer um bem, e que mesmo sendo razoável apenas por um breve instante não se perde nada da felicidade em relação a quem pratica a virtude toda a vida, conforme Plutarco, Das noções comuns contra os estoicos, 1061F; e Crisipo repete continuamente que os que foram felizes por mais tempo não são de modo algum mais felizes do que os que participaram da felicidade por pouco tempo, conforme Plutarco, Das contradições dos estoicos, 1046C.
    • Epicuro considera que o tempo ilimitado e o tempo limitado contêm um prazer igual, se se medem os limites do prazer pelo raciocínio, conforme as Máximas capitais 19; e Cícero relata que Epicuro recusa que uma longa duração de tempo acrescente algo à vida feliz, conforme Das finalidades dos bens e dos males II, 27, 87-88.
    • Plotino se junta ao debate admitindo a conclusão dos estoicos e dos epicuristas, com argumentação que se resume em três pontos principais.
  • O primeiro ponto é que a felicidade não pode crescer com o tempo, pois a felicidade passada não pode se somar à presente: a felicidade se desdobra unicamente no presente.
    • O mesmo vale para o desejo, o prazer e o sofrimento, que todos existem apenas no presente e nunca se somam ao que deles já é passado.
    • Plotino refuta assim a doutrina epicurista segundo a qual as lembranças de prazeres passados podem aumentar a felicidade: nenhuma lembrança pode de fato aumentar a felicidade presente.
  • O segundo ponto é que a felicidade, para a alma, consiste em viver a vida do Intelecto, que transcende a temporalidade e se situa na eternidade.
    • Essa vida primeira e perfeita não conhece nem o mais nem o menos nem a extensão, de modo que a felicidade que lhe pertence não pode aumentar, diminuir ou mesmo se prolongar, pois permanece completa e imutável a cada instante.
  • O terceiro ponto é que a felicidade não depende tampouco das ações virtuosas realizadas, pois não se mede pelo número de ações efetuadas.
    • A felicidade do contemplativo, a da alma que reencontrou o Intelecto, é superior à do homem de ação; é a disposição virtuosa da alma que dá sentido à ação, e não o inverso, pois a ação não basta para produzir a felicidade ou a virtude.
    • A felicidade e a virtude são estados psíquicos que não resultam da ação: esta incide sobre coisas exteriores e contingentes, enquanto a felicidade é interior e imutável, dependendo exclusivamente da alma e de sua disposição virtuosa, que se identifica à vida intelectiva mais elevada e mais perfeita, a do Intelecto.

Igal

BCG57

Este tratado, embora cronologicamente anterior ao I 4, é tematicamente complementar a ele. A vida feliz se subtrai não apenas às vicissitudes do mundo exterior, à mutabilidade do composto e à percepção consciente (tese do I 4), mas também à duração temporal. A razão fundamental é que a felicidade, como vida perfeita que é, corresponde primariamente à Vida primária, que é a da segunda Hipóstase. Ora, a vida da segunda Hipóstase é a eternidade (Introd. gen., secc. 30). Em definitiva, portanto, vida perfeita, vida feliz e vida eterna são a mesma coisa. O homem participa delas por meio da inteligência: a intelecção é atemporal (IV 4, 1, 11-14); transcende a duração temporal, assim como transcende a percepção consciente, a memória e o raciocínio, e entra na esfera da eternidade.


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