neoplatonismo:plotino:eneada-i:9:start

I, 9 SOBRE O SUICÍ­DIO RAZOÁVEL

Tratado 16

Brisson & Pradeau

BP

  • Nesse minúsculo tratado, Plotino se interroga sobre a legitimidade do suicídio, perguntando-se notadamente se se pode reconhecer, ao menos em certos casos, a possibilidade de ele ser “razoável” (eulogos).
    • O texto toma a forma de uma exortação destinada a prevenir o suicídio, emprestando o tom de uma pregação moral e popular em voga na época, particularmente entre os autores estoicos, a fim de demonstrar uma tese única: recusar toda legitimidade ao suicídio, adotando a palavra de ordem do Fédon platônico que afirmava o caráter sempre “irracional” (alogon) da morte voluntária (61c-62c).
    • Na medida em que a divindade decide sozinha a duração da vida mortal e o destino dos homens, ninguém tem o direito de usurpar sua autoridade e se dar a morte.
    • Essa tese platônica era disputada pelos contemporâneos de Plotino, especialmente os autores estoicos, que admitiam que se pudesse pôr fim à própria vida em alguns casos extremos, como o da loucura, defendendo a possibilidade de um suicídio “razoável”: o sábio, para se subtrair à loucura que ameaçasse fazê-lo cometer atos irracionais, poderia encontrar na morte voluntária o único meio de preservar o rigor moral de sua conduta.
    • Plotino objeta categoricamente a essa possibilidade, refutando sem exceção alguma todo motivo de suicídio com quatro argumentos sucessivos: primeiro, os laços entre alma e corpo devem se dissolver de modo natural, pois do contrário a alma partiria do corpo permanecendo de certa forma “afetada” por ele, sem ser livre e pura; segundo, quem tentasse antecipar esse fim natural faria violência ao corpo, mostrando-se vítima de paixões que convém dominar e repelir; terceiro, “o tempo que nos é dado é fixado pelo destino” e não temos o direito de modificar a ordem natural estabelecida pela divindade; quarto, como a condição da alma após a morte do corpo depende do nível de perfeição que ela soube atingir durante a vida mortal, os homens devem aproveitar todo o tempo que lhes é dado para permitir-lhe progredir ao máximo.
    • Plotino não admite nenhum motivo para o suicídio, a menos, como repete duas vezes, “que seja verdadeiramente necessário”; essa reserva pode surpreender, e o caso que poderia autorizar o suicídio não é precisado aqui.
    • No tratado 46 (I, 4) Sobre a felicidade, que retoma brevemente essa questão nos capítulos 7 a 8, Plotino evoca o exemplo dos prisioneiros de guerra e o dos homens oprimidos por dores intoleráveis, que poderiam legitimamente ceder à tentação do suicídio, mas sem explicar qual seria o critério de um suicídio “verdadeiramente necessário”.
    • Pode-se supor que, por meio dessa fórmula, Plotino não indica tanto uma real exceção à proibição do suicídio quanto a possibilidade de um caso limite que, sem comprometer o rigor de seus argumentos, testemunharia uma margem de dúvida a não dissipar quando se trata de questões tão graves.

Igal

BCG57

O fato de a vida aqui ser um mal e a morte um bem (I, 7, 3) não implica que o suicídio seja justificável. Ao abordar, neste brevíssimo tratado da primeira etapa (Vida 4, 53), o problema do suicídio, tema clássico nas escolas antigas, a postura de Plotino está mais próxima de Platão do que dos estoicos. Seu interesse não se concentra em determinar por quais razões, se é que existem, e em que circunstâncias, se é que existem, o suicídio pode ser um ato razoável, mas, pelo contrário, em acumular razões para desaconselhá-lo (a não ser em circunstâncias excepcionais, e como um mal menor) a partir de uma perspectiva escatológica alheia ao estoicismo. Por isso, os títulos deste pequeno tratado nos dois catálogos da Vida representam um desvio, pois respondem à preocupação estoica mais do que à de Plotino. Notemos, finalmente, que aqui, assim como em sua conversa dissuasiva com Porfírio (Vida 11. 11-15), Plotino se dirige ao filósofo ou ao aspirante a filósofo. Isso é importante na hora de comparar I 9 com I 4[6].

Armstrong

APE

ESTE breve tratado pertence ao grupo inicial (n.º 16 na ordem cronológica), tendo sido escrito antes de Porfírio se juntar a Plotino; por isso, não pode apresentar os argumentos que Plotino utilizou para dissuadir Porfírio do suicídio (Vida, cap. 11). Creuzer supôs que se tratasse de um resumo extraído da edição de Eustoquio; Heinemann, de uma paráfrase ou resumo (e impreciso) de Porfírio que substituiu o texto original: mas não parece haver razão suficiente para não acreditar, com Brehier, Harder, Henry e Schwyzer, que se trata do tratado genuíno de Plotino que ocupava este lugar na edição de Porfírio.

Lloyd

LPE

Neste breve tratado — ou talvez nota —, Plotino aborda uma questão que surge ao longo da história da filosofia antiga, a saber, a justificabilidade do suicídio. A visão de Plotino está, sem surpresa, em consonância com o argumento apresentado no Fédon de Platão, mas acrescenta também reflexões sobre como, se é que de alguma forma, as doutrinas peripatéticas e estoicas poderiam influenciar a proibição do suicídio. Na editio minor de Henry e Schwyzer, há um apêndice a este tratado com um trecho da Introdução à Filosofia de Elias, um aluno de Olimpiodoro, que supostamente cita Plotino sobre o suicídio. Henry e Schwyzer rejeitaram posteriormente a autenticidade desse fragmento, embora, como sugere Armstrong, ele possa ter origem nos ensinamentos orais de Plotino.

Em suma, a retirada violenta da alma do corpo é injustificável. Esse tipo de retirada sobrecarrega a alma que parte com as paixões corporais. O suicídio também priva os seres humanos da possibilidade de progresso moral.


neoplatonismo/plotino/eneada-i/9/start.txt · Last modified: (external edit)