II, 4 SOBRE AS DUAS MATÉRIAS
Brisson & Pradeau
BP
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O tratado Sobre as duas matérias é de riqueza e complexidade notáveis, desenvolvendo uma teoria da matéria que, mesmo se inspirando nas especulações de Aristóteles, Platão e dos estoicos, se revela muito original, seguindo um plano rigoroso: após breve introdução no capítulo 1, Plotino aborda a questão da matéria inteligível nos capítulos 2 a 5 e prossegue com a da matéria sensível nos capítulos 6 a 16.
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As diversas concepções antigas da matéria podem ser classificadas segundo que os filósofos a designam como una ou múltipla, e como incorpórea ou corporal, conforme Aristóteles observa na Metafísica A, 7, 988a24-25.
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Para os estoicos, a matéria é única e corporal; para os aristotélicos, única e incorpórea; para os platônicos, múltipla e incorpórea.
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Não se encontra em Platão nenhum argumento explícito em favor da existência de uma pretensa matéria inteligível, mas os representantes do médio-platonismo, inspirando-se em certas observações de Aristóteles, reconheceram sua existência e lhe dedicaram numerosas páginas.
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Segundo Aristóteles, Platão teria feito da Díade indefinida, do Grande e do Pequeno, ou do ilimitado a matéria das Ideias, conforme, por exemplo, a Metafísica A, 6, 987b18-26; 988a11-14, a Física III, 4, 203a10 e III, 6, 207a28-30.
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Isso foi suficiente para lançar um debate na escola médio-platônica sobre a existência de uma matéria inteligível identificada à Díade indefinida; e é a essa interpretação do pensamento platônico que Plotino se alinha no tratado, associando a matéria ao ilimitado (apeiron, cap. 15) e ao par do Grande e do Pequeno (11, 32-36).
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Outros tratados plotinianos identificam a matéria inteligível à Díade indefinida, como 7 (V, 4), 2, 7-8 e 10 (V, 1), 5.
Igal
BCG57
O título “Sobre as duas matérias que dão a este tratado do primeiro período os dois catálogos da Vida” (4, 45 e 24, 46) reflete melhor seu conteúdo: após uma breve resenha doxográfica (cap. 1), seguem-se duas seções paralelas, uma dedicada à matéria inteligível (cap. 2-5) e outra à do mundo sensível (6-16), e em ambos os casos são estudados dois pontos: existência e natureza. Por seu reconhecimento da existência de uma matéria inteligível, Plotino difere, igualmente, dos peripatéticos e dos estoicos. No que diz respeito à matéria do mundo sensível, difere dos segundos por sua concepção da matéria como incorpórea e como isenta não apenas de qualidade, mas também de magnitude. De Aristóteles, em quem, aliás, se inspira amplamente, difere em um ponto concreto: para Plotino, a matéria identifica-se, ainda que conceitualmente, com a privação, que não é um acidente da matéria, mas a própria essência desta. A ideia do conhecimento da matéria por um “raciocínio bastardo” é tomada do Timeu.
Armstrong
APE
O título deste tratado (n.º 12 na ordem cronológica de Porfírio) é indicado por Porfírio na Vida como peri ton dyo hylon (Sobre os Dois Tipos de Matéria); nos manuscritos das Enéadas e nos antigos índices (Pinax, Summarium), aparece simplesmente como Sobre a Matéria. É mencionado pelo próprio Plotino em 1. 8. 15. 2 . . . deikteon auto ek ton peri hyles logon . . . mas Harder certamente está certo ao afirmar que não se trata de um título ali — a frase significa simplesmente “a partir de nossas discussões sobre a matéria”. Sabemos, de fato, que Plotino (Vida, cap. 4) não dava títulos aos seus tratados: e o título dado na Vida a este parece preferível, porque descreve melhor o conteúdo, já que a primeira parte do tratado é dedicada à matéria inteligível, a segunda à matéria do mundo sensível. O tratado é um bom exemplo do método de trabalho de Plotino em sua forma mais profissional e técnica, uma discussão minuciosa e crítica das visões dos estóicos e de Aristóteles. Como de costume, ele está particularmente preocupado em realizar uma reavaliação crítica da doutrina de Aristóteles, com o objetivo de adaptá-la ao platonismo tal como ele o entendia. Os principais pontos em que ele difere de Aristóteles neste tratado são: (1) ele aceita a matéria no mundo inteligível; as objeções à crença em sua existência, expostas no cap. 2 e refutadas nos capítulos seguintes, são, em essência, aristotélicas; (2) ele identifica a matéria no mundo sensível com a privação; isso é estabelecido contra Aristóteles nos capítulos 14 até o final, o que é essencial para que Plotino mantenha sua doutrina de que a matéria é o princípio do mal, a negatividade última, o que aparece claramente no final do tratado. Por outro lado, Plotino mantém a doutrina de Aristóteles contra os estóicos quando argumenta que a matéria é incorpórea e desprovida de qualquer tipo de dimensão (capítulos 1, 8-12).
Lloyd
LPE
Neste tratado inicial, Plotino desenvolve sua teoria característica sobre a matéria, pela qual se distingue não apenas de seus antecessores pré-socráticos, aristotélicos e helenísticos, mas também, em última instância, dos neoplatônicos posteriores. Como já indica o título alternativo “Sobre os Dois Tipos de Matéria”, dado por Porfírio em sua Vida de Plotino (§4 e §24), Plotino divide aqui sua atenção entre a matéria inteligível (§§2–5) e a matéria sensível (§§6–14). Particularmente distintiva é a identificação de Plotino da matéria sensível com a privação e o não-ser, e especialmente com o mal, que Proclo rejeitaria séculos mais tarde em seu tratado Sobre a Existência dos Males.
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