TRATADO 12 (II, 4) - SOBRE AS DUAS MATÉRIAS
Brisson & Pradeau
BP
Capítulo 1: Introdução.
1-4. Em geral, considera-se a matéria como um substrato e um receptáculo das formas.
4-6. Mas não há consenso sobre a natureza dessa matéria e sobre o que ela recebe.
6-18. Teorias dos estoicos, aristotélicos e platônicos.
Capítulos 2 a 5: A matéria inteligível.
Cap. 2. Objeções contra a matéria inteligível.
Cap. 3. Respostas às objeções.
Cap. 4. A matéria inteligível existe.
Cap. 5, 1-23. Sobre a matéria e a forma.
Cap. 5, 24-39. A geração intemporal das Formas.
Capítulos 6 a 16: A matéria sensível.
Cap. 6. A matéria sensível existe.
Cap. 7. Refutação das teorias pré-platônicas sobre a matéria.
Cap. 8. A natureza da matéria sensível.
Cap. 9. A quantidade e a grandeza versus a matéria sensível.
Cap. 10. Como o Intelecto percebe a matéria.
Cap. 11, 1-13. Aporias relativas à noção de uma matéria sem grandeza.
Cap. 11, 13-cap. 12. Respostas às objeções anteriores.
Cap. 13. A matéria versus a qualidade.
Cap. 14. A matéria e a privação.
Cap. 15. A matéria e o ilimitado.
Cap. 16. A matéria, a alteridade, a privação e o mal.
Bouillet
(§ I) Os filósofos concordam em definir a matéria como a substância, o sujeito, o receptáculo das formas. Mas uns [os estoicos] consideram a matéria como um corpo sem qualidades; outros [os pitagóricos, os platônicos, os peripatéticos] acreditam que ela seja incorpórea; alguns destes últimos distinguem duas espécies: a substância dos corpos, ou matéria sensível, e a substância das formas incorpóreas, ou matéria inteligível.
SOBRE A MATÉRIA INTELIGÍVEL. — (II-V) A existência da matéria inteligível suscita várias dificuldades: parece que não poderia haver, no mundo inteligível, nada de informe nem de composto. Para responder a essas objeções, basta observar que, aplicados aos seres inteligíveis, os termos “informe” e “composto” têm apenas um valor relativo: por exemplo, a alma é informe apenas em relação à inteligência que a determina. Além disso, a matéria inteligível é imutável e está sempre unida a uma forma. Para explicar sua existência, é preciso considerar que as ideias ou essências têm algo em comum e algo próprio que as diferencia umas das outras: o que elas têm em comum é sua matéria; o que elas têm de próprio é sua forma. Assim, a matéria das ideias é o único sujeito das múltiplas diferenças. Ela é o fundo das coisas; e, assim como a forma, a essência, a ideia, a razão e a inteligência são chamadas de luz, a matéria é equiparada às trevas. Mas há uma grande diferença entre o fundo tenebroso das coisas inteligíveis e o das coisas sensíveis. Como a forma dos inteligíveis possui uma realidade verdadeira, sua substância tem o mesmo caráter; é uma essência eterna, imutável. Sua razão de ser é que cada inteligível é informe antes de ser determinado por seu princípio gerador: é assim que a Alma recebe sua forma da Inteligência, e a Inteligência do Um, que é a fonte de toda luz[21].
DA MATÉRIA SENSÍVEL. — (VI-VIII) A existência da matéria sensível, que serve de sujeito aos corpos, demonstra-se pela transformação dos elementos uns nos outros, pela destruição das coisas visíveis, etc. Ela não é nem a mistura de Anaxágoras, nem o infinito de Anaximandro, nem os elementos de Empédocles, nem os átomos de Demócrito. A matéria prima (que deve ser bem distinguida da matéria propriamente dita) é uma, simples, sem qualidade nem quantidade. Ela recebe sua quantidade, assim como todas as suas qualidades, da forma ou essência.
(IX-X) A matéria não tem quantidade porque o ser é distinto da quantidade: por exemplo, a substância incorpórea não tem extensão. O espírito pode, aliás, conceber a matéria sem quantidade. Para isso, basta-lhe abstrair-se da quantidade e de todas as qualidades dos corpos; tendo assim chegado a um estado de indeterminação, concebe a matéria em virtude dessa mesma indeterminação e recebe a impressão do informe.
(XI-XII) Para compor os corpos, não basta a quantidade e as qualidades; é necessário ainda um sujeito que as receba. Esse sujeito é a matéria-prima, que não possui extensão. Ela não é, como se alegou, a quantidade separada das qualidades. Ela possui existência, embora sua existência não seja clara para a razão nem captável pelos sentidos.
(XIII-XIV) Se a matéria não é a quantidade, também não é uma qualidade comum a todos os elementos. Aliás, não se pode considerar como qualidade a privação, que é a ausência de qualquer propriedade. A matéria não é a alteridade, mas apenas uma disposição para se tornar as outras coisas. Também não é o não-ser, mas apenas o último grau do ser.
(XV-XVI) A matéria não é o infinito por acidente; ela é o próprio infinito, tanto no mundo inteligível quanto no mundo sensível. Esse infinito, que constitui a matéria, procede da infinitude do Um; mas entre o infinito do Um e o infinito da matéria há esta diferença: o primeiro é o infinito ideal e o segundo, o infinito real. Esse caráter de infinito concilia-se muito bem na matéria com a privação de toda quantidade e de toda qualidade.
Por estar desprovida da forma, que é a fonte de toda a beleza e de toda a bondade, a matéria é, por isso mesmo, feia e má[22].
Em resumo, no mundo inteligível, a matéria é o ser porque o que está acima dela, o Um, é superior ao ser; no mundo sensível, a matéria é o não-ser, porque o que está acima dela, a Essência ou a Forma, é o verdadeiro ser.
Igal
BCG57
I. TEORIAS SOBRE A MATÉRIA (cap. 1).
1. Segundo todos: substrato e receptáculo das formas (1, 1-4).
2. Segundo alguns: corpo sem qualidade, mas com magnitude (1, 4-14).
3. Segundo outros: incorpórea; e, segundo alguns desses, há duas matérias: a dos sensíveis e a dos inteligíveis (1, 14-18).
II. MATÉRIA INTELIGÍVEL: EXISTÊNCIA (cap. 2-4).
1. Objeções: ali não há nada informe; tudo é simples; tudo é não gerado; haveria vários princípios; o composto seria corpo (cap. 2).
2. Respostas: nos inteligíveis cabe o informe; o composto o é em outro sentido; a matéria de ali não muda de forma (cap. 3).
3. Argumentos positivos: 1) Há variedade de Formas; logo, haverá um substrato comum. 2) O cosmos inteligível é modelo do sensível; logo, também lá haverá matéria. 3) É um e variado; logo, antes da variedade, haverá algo único e informe (cap. 4).
III. MATÉRIA INTELIGÍVEL: NATUREZA (cap. 5).
1. Em contraste com a daqui (opaca, morta e irreal), ela é viva, intelectiva, substancial e luminosa (5, 1-23).
2. Originada por um princípio, mas eterna (5, 23-28).
3. Constituída pela alteridade e pelo movimento primeiro, que são, por si só, indeterminados e não iluminados, mas se determinam e iluminam ao voltarem-se para o primeiro Princípio (5, 28-39).
IV. MATÉRIA DO MUNDO SENSÍVEL: EXISTÊNCIA (cap. 6). É comprovada pela transformação recíproca dos elementos, pela indução e pela análise.
V. MATÉRIA DO MUNDO SENSÍVEL: NATUREZA (caps. 7-16).
1. Contra os pré-socráticos: não é nem os elementos de Empédocles, nem a mistura de Anaxágoras, nem o Ilimitado de Anaximandro, nem os átomos (cap. 7).
2. Contra os estoicos: não é corpo nem possui magnitude (caps. 8-10):
1) Se fosse corpo, teria qualidade; mas a matéria-prima carece de qualidade e de figura; logo, também de magnitude (8, 1-11).
2) A matéria-prima é simples: as determinações, incluindo a magnitude, provêm do criador (= «razão seminal») (8, 11-21).
3) Se tivesse magnitude, teria figura (8, 21-23).
4) A magnitude faz parte da razão seminal (8, 23-30).
5) O incorpóreo carece de quantidade, que é forma (cap. 9).
6) A matéria é apreendida por um raciocínio bastardo fundado em uma pseudo-intelectualidade (cap. 10).
3. Contra certos adversários anônimos: a matéria não é massa (caps. 11-12):
1) Para ser receptáculo, não precisa ser massa; recebe as qualidades dimensionalmente porque recebe antes a magnitude (11, 1-27).
2) É aparência de massa por sua ductilidade (11, 27-43).
3) Contribui para a formação dos corpos porque é um substrato dotado de magnitude, mas distinto da magnitude (12, 1-13).
4) A analogia das ações não se aplica (12, 13-22).
5) O fato de ser imperceptível não demonstra que não exista (12, 22-37).
4. Contra outros adversários anônimos: a matéria não é qualidade (cap. 13).
1) Não é uma qualidade especial (13, 1-7),
2) nem uma qualidade negativa a modo de privação (13, 7-23),
3) sua individualidade está em sua alteridade (13, 23-32).
5. Contra Aristóteles: a matéria é privação essencial, não sujeito de privação (cap. 14-16):
1) O que significa que matéria e privação são uma única coisa pelo substrato e duas pela definição? (cap. 14).
2) A privação não é um acidente da matéria; esta é ilimitada essencialmente, mais ilimitada do que o inteligível (cap. 15),
3) e é alteridade no sentido de privação do ser, totalmente má e não-ser (cap. 16).
Armstrong
APE
A matéria é o substrato e o receptáculo das formas. Diversas visões sobre sua natureza: corpórea (estoicos) e incorpórea (platônicos e aristotélicos). A doutrina platônica da matéria inteligível (cap. 1). Objeções à existência da matéria inteligível (cap. 2). Refutação das objeções e explicação da verdadeira natureza e função da matéria inteligível (cap. 3-5). A matéria no mundo sensível, argumentos aristotélicos a favor de sua existência (cap. 6). Crítica às concepções pré-socráticas, inclusive por parte de Aristóteles (cap. 7). Argumentos para demonstrar que a matéria é incorpórea e sem tamanho, e que a concepção de uma matéria incorpórea e sem tamanho tem um significado real e valor filosófico (cap. 8-12). A matéria também não é qualidade, seja positiva ou negativa (cap. 13). Ao contrário do que afirma Aristóteles, ela é idêntica à privação (cap. 14-16) e, portanto, é negatividade absoluta e mal (cap. 16).
Lloyd
LPE
§1. Todos concordam que a matéria é o substrato das formas, mas há divergências sobre se a matéria é corpórea ou não, se é substancial ou não e se existe matéria inteligível.
§2. Plotino inicia sua investigação sobre a matéria inteligível. São apresentados alguns obstáculos preliminares à existência da matéria inteligível.
§3. A indefinição não é um obstáculo à existência da matéria inteligível, uma vez que a matéria no mundo inteligível sempre terá todas as formas.
§4. A matéria inteligível parece ser necessária para explicar o fato de que o cosmos inteligível é ao mesmo tempo múltiplo e uno, e o fato de que sua imagem, o cosmos sensível, possui tanto forma quanto matéria.
§5. Aqueles que declaram que a matéria é substancial estão corretos, de certa forma. Pois a matéria inteligível pode ser considerada substancial na medida em que é iluminada e possui vida intelectual. A matéria inteligível é eterna, mas gerada.
§6. Plotino passa a examinar a matéria sensível. A reflexão sobre a geração e a destruição dos corpos sensíveis mostra que deve haver matéria sensível.
§7. Uma crítica às teorias pré-socráticas sobre a matéria sensível.
§§8–9. A matéria sensível é incorpórea e desprovida de qualidade. Também não possui quantidade ou magnitude, que são conferidas à matéria por qualquer forma que ela receba.
§10. Apesar da falta de determinação da matéria, temos acesso epistemológico a ela. Isso é possível por meio de um tipo de pensamento obscuro ou raciocínio espúrio.
§11. A matéria não deve ser confundida com massa, mesmo que pareça ser massa quando tentamos imaginá-la.
§12. Embora as ações existam no mundo sensível sem requerer matéria, a matéria é necessária para a qualidade, a magnitude e a corporeidade.
§§13–14. A matéria não é uma qualidade. A matéria e a privação são uma só no substrato, mas duas em termos de consideração.
§15. Tanto a matéria inteligível quanto a sensível são ilimitadas, e não meramente de maneira acidental, e a matéria sensível é mais verdadeiramente ilimitada do que a matéria inteligível.
§16. Enquanto a matéria inteligível é o Ser, a matéria sensível é pobreza de bondade e extremamente má.
