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Tratado da Alma (fragmentos)

Ennéades (tr. Bouillet)

I. Eis um argumento que parece excelente a Platão para demonstrar a imortalidade da alma: é aquele que se depreende dos semelhantes. Se a alma é semelhante ao ente divino, imortal, invisível, indivisível, indissolúvel, que subsiste e permanece em sua incorruptibilidade, como não pertenceria ela ao gênero que é conforme ao seu modelo? Com efeito, quando, em presença de dois extremos evidentemente contrários, tais como o ente razoável e o ente irrazoável, discute-se a qual dos dois gêneros pertence um outro ente, não há senão uma única demonstração que seja possível: é fazer ver a qual dos dois extremos este ente é semelhante. Assim, embora o gênero humano na primeira idade não possua ainda a razão, e que muitos indivíduos cometam até a velhice faltas que implicam ausência de razão, todavia, como o gênero humano tem muitos traços de semelhança com o ente puramente razoável, foi ele considerado como razoável desde a origem. Sendo o gênero que formam os deuses evidentemente puro e inalterável, ao passo que os entes terrestres e tangíveis são perecíveis, se se indaga em qual gênero é preciso classificar a alma, Platão pensa que, para resolver a questão, deve-se examinar a quem a alma é semelhante. Ora, como ela não se assemelha de modo algum ao ente perecível, dissolúvel, estranho à inteligência e à vida, e por conseguinte tangível, sensível, que nasce e morre; como, ao contrário, ela se assemelha ao ente divino, imortal, invisível, intelectual, essencialmente vivo, tendo afinidade pela verdade, possuindo enfim todos os atributos que se descobrem na alma; pareceu impossível conceder à alma os outros caracteres de similitude e recusar-lhe ao mesmo tempo a similitude de essência, visto que os outros caracteres de similitude são precisamente as consequências mesmas desta similitude de essência. Se os entes que diferem de Deus por seus atos dele diferem também pela constituição de sua essência, resulta que os entes que participam dos mesmos atos devem possuir também uma essência semelhante: pois é a qualidade da essência que determina a qualidade dos atos, visto que é da essência que os atos nascem e decorrem.

II. É necessária uma longa argumentação para demonstrar que a alma é imortal e ao abrigo da destruição. Mas não há necessidade de uma sábia discussão para estabelecer que, de tudo o que se encontra em nós, a alma é o que possui maior semelhança com Deus, não somente por causa da atividade constante e infatigável que ela nos comunica, mas ainda por causa da inteligência que possui. É esta consideração que fez dizer ao físico de Crotona [Pitágoras] que, sendo a alma imortal, a inércia é contrária à sua natureza, como o é à dos corpos divinos [dos astros]. Que se examine de uma vez a essência de nossa alma, a inteligência que domina em nós, que nos sugere frequentemente reflexões e desejos de uma natureza tão elevada, e estar-se-á convencido da semelhança que nossa alma tem com Deus.

III. Se se faz ver claramente que a alma é de todas as coisas aquela que tem mais semelhança com Deus, que necessidade há de recorrer aos outros argumentos para demonstrar sua imortalidade? Não basta pôr adiante esta prova, que tem um valor todo particular, para convencer as gentes de boa-fé que a alma não participaria dos atos que convêm à divindade se não tivesse ela mesma uma natureza divina? Que se considere a alma, com efeito: está sepultada em um corpo mortal, dissolúvel, desprovido de inteligência, que não é senão um cadáver por si mesmo, que incessantemente tende a alterar-se, a dividir-se e a perecer; todavia, ela o molda e dele mantém as partes ligadas entre si; ela mostra que tem uma essência divina, embora esteja tolhida e embaraçada por este invólucro mortal; que seria, pois, se, pelo pensamento, se separasse este ouro da terra que o cobre? A alma não mostraria então claramente que sua essência não se assemelha senão à de Deus? Por este fato que, mesmo em sua existência terrestre, participa da natureza da divindade, que continua a imitá-la por seus atos, que não é dissolvida pelo invólucro mortal no qual se encontra aprisionada, não faz ela ver que está ao abrigo da destruição?

IV. A alma parece divina pela semelhança que tem com o ente que é indivisível; e mortal, por seus pontos de contato com a natureza perecível. Segundo desça ou remonte, tem o aspecto de ser mortal ou imortal. De um lado, há o homem que não tem outra ocupação senão a boa mesa, como os brutos. De outro lado, há o homem que, por seu talento, salva o navio na tempestade, ou restitui a saúde a seus semelhantes, ou descobre a verdade, ou encontra o método que convém à ciência, ou inventa sinais de fogo, ou traça horóscopos, ou, por máquinas, imita as obras do criador. Não imaginou o homem, com efeito, representar aqui embaixo o curso dos sete planetas, imitando por movimentos mecânicos os fenômenos celestes? Que não inventou o homem ao manifestar a inteligência divina que encerra em si mesmo? Certamente, esta prova bem por suas concepções ousadas que é verdadeiramente olímpica, divina, e totalmente estranha à condição mortal; todavia, em consequência de seu apego pelas coisas terrestres, apego que o torna incapaz de reconhecer esta inteligência, o vulgo, julgando-a segundo as aparências exteriores, persuadiu-se de que ela é mortal. As gentes desta espécie não têm, com efeito, senão um meio de se consolar de seu embrutecimento, que é fundar-se sobre as aparências exteriores para atribuir aos outros a mesma baixeza, e persuadir-se assim de que todos os homens são semelhantes no interior como no exterior.

Refutação dos Peripatéticos.

V. Quanto àquele que ensina que a alma é uma entelékheia, e que sendo ela mesma completamente imóvel, é todavia o princípio dos movimentos, que explique de onde provêm os enthouasiasmoi do ente vivo, quando já nada apreende do que vê nem do que diz, que sua alma tem a intuição do futuro e do que não é presente, e que se aplica ao idêntico [ao inteligível]; que diga igualmente de onde provêm no ente vivo as deliberações, as reflexões e as vontades da alma, enquanto é a alma do ente vivo: pois são estes movimentos da alma e não do corpo.

VI. Comparar a natureza da alma à pesadez ou às qualidades corpóreas uniformes e imóveis, qualidades que modificam o sujeito e determinam sua natureza, é o próprio de um homem que, voluntária ou involuntariamente, nada compreende da dignidade da alma, que não vê que o corpo do ente vivo não se tornou vivo senão pela presença da alma, como é pela presença do fogo junto ao qual se encontra colocada que a água se torna quente, como é pelo levantar do sol que é iluminado o ar que é naturalmente obscuro quando não é assim iluminado. Mas o calor da água não é o calor do fogo nem o fogo em si; a luz que se espalha no ar não é tampouco a luz própria à essência do sol: do mesmo modo, a animação do corpo (empsychia), a qual desempenha um papel análogo ao da pesadez e da qualidade que reside no corpo, não é de modo algum a alma que desceu ao corpo e da qual o corpo recebe uma espécie de sopro vital.

VII. O que outros filósofos disseram sobre a alma parece-me vergonhoso. Não é vergonhoso, com efeito, dizer que a alma é a entelékheia de um corpo natural organizado? Não é igualmente vergonhoso fazer consistir a alma em um fogo inteligente ou em um sopro que tem um certo caráter, sopro que foi exposto ao frio do ar e temperado de algum modo por seu contato; supor que é uma agregação de átomos; em geral, ensinar que é engendrada pelo corpo? (Opinião que foi declarada ímpia mesmo nas leis dos ímpios). Todas estas opiniões são, pois, vergonhosas. Não é o mesmo com aquela que define a alma como uma substância que se move a si mesma.

Refutação dos Estoicos.

VIII. Ousam chamar Deus de um fogo inteligente (pyr noerón), e supor ao mesmo tempo que é eterno. Dizem que este fogo destrói e devora tudo como o fogo que conhecemos, e combatem Aristóteles porque não quer admitir que o éter seja composto de um fogo semelhante ao nosso. Quando se lhes pergunta como este fogo subsiste, visto que o fazem completamente semelhante ao nosso, pretendem que se deve crer sob palavra, e, à crença irracional de que o fogo é eterno, acrescentam ainda esta hipótese de que o corpo etéreo se apaga e se reacende por partes. Mas que necessidade há de nos estendermos mais, por um lado sobre a falta de juízo que estes filósofos mostram em seu próprio sistema, e por outro lado sobre sua ignorância e seu desprezo pela doutrina dos antigos?

Apreciação das diversas provas da imortalidade da alma.

IX. As provas tiradas seja das concepções intelectuais (ennoiai), seja da história, demonstram incontestavelmente que a alma é imortal, ao passo que os argumentos tomados aos filósofos parecem fáceis de derrubar por causa desta facilidade de elocução que todos aplicam na controvérsia. Qual é, com efeito, a demonstração que não seja contestada pelos sequazes de uma outra escola, visto que certos filósofos [os Pirrônicos] pretenderam que é preciso suspender o assentimento, mesmo para as coisas que parecem evidentes?

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