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I-14

Resumo de Saffrey e Westerink

Capítulo 14. Atributos divinos ligados às Leis. 1. Existência dos deuses.

Uma divisão exaustiva do real segundo a categoria do movimento leva a hierarquizar os seres da seguinte maneira: o imóvel não motor, o imóvel motor, o imóvel por si mesmo, o imóvel (p. 60.12-61.22).

Essa divisão abrange a hierarquia das hipóstases de acordo com a categoria do ser, a saber: o imóvel não motor — os corpos; o imóvel motor = as formas e qualidades imanentes aos corpos; o imóvel por si mesmo = a alma, pela qual se pode explicar os movimentos do universo e a ordem do mundo, o que pressupõe que essa alma é inteligente; o imóvel — o intelecto, uma vez que a alma só é inteligente por participação, é ele a causa primeira de todo movimento e fonte de toda a vida (p. 61.23-66.2).

Mas, uma vez que esse intelecto imóvel é deus apenas por participação, ele deve depender do Um, assim como todo o universo através dele. Assim, o corpo do mundo é animado pela alma, a alma recebe a vida do intelecto, o intelecto é divinizado pelo Um. Esse raciocínio nos permite reconhecer no universo a existência hierárquica dos deuses: 1ª classe dos deuses propriamente ditos (as henades), 2ª classe dos intelectos divinos, 3ª classe das almas divinas. (Os corpos só podem ser chamados de divinos na medida em que participam da alma.) (p. 66.3-67.17).

Podemos fazer o mesmo raciocínio em relação a cada esfera celeste, à Terra, a cada elemento do universo, cada um contendo seus seres vivos particulares organizados em hierarquias (p. 67.18-68.16).

Conclusão: existe um único universo corporal que contém todos os corpos, uma única alma do mundo, organizadora de todas as almas que animam o mundo, um único intelecto que se subordina a todos os outros, um único deus que reúne todos os deuses (p. 68.17-69.7).


Resumo da tradução de Thomas Taylor

  • Consequência da hierarquia estabelecida: os Deuses como causas de todo movimento
    • Alguns Deuses: essenciais e vivíficos, segundo poder automotivo, autovital e autoenergético
    • Outros: intelectuais, excitam pela sua essência todas as naturezas secundárias à perfeição da vida, segundo fonte e princípio das progressões segundas e terceiras do movimento
    • Outros: unificais, caracterizados pela unidade, deificam por participação todos os gêneros totais de si mesmos, segundo poder primário, todo-perfeito e desconhecido de energia, líderes de um tipo de movimento, não princípio de outro
    • Outros: fornecem a naturezas secundárias movimento segundo lugar ou qualidade, mas são essencialmente causas de movimento para si mesmos
  • Prioridade causal
    • Tudo que é causa de essência para outras coisas é muito anterior a ser causa para si de energias e perfeição próprias
    • Automotivo é novamente princípio de movimento; ser e vida dados pela alma a tudo no mundo, não apenas movimento local, mas progressão ao ser
    • Em prioridade maior, de essência intelectual, que liga a si a vida das naturezas automotivas e precede por causa toda energia temporal
    • Em grau ainda maior: movimento, ser e vida procedem de uma hyparxis unificai que contém conectivamente intelecto e alma, é fonte do bem total e procede até as últimas coisas
  • Participação universal no Um
    • Vida, intelecto e poder gnóstico não participados por todas as partes do mundo
    • O Um participado por todas as coisas, até a matéria, todos e partes, coisas segundo natureza e seus contrários
    • Nada privado desta causa; nada pode participar de ser se privado do Um
  • Necessidade da providência universal
    • Se os Deuses produzem e contêm todas as coisas na compreensão desconhecida de si, como pode não haver providência de todas as coisas nestas compreensões, permeando supernalmente até as naturezas mais parciais?
    • Princípio universal: descendentes devem gozar do cuidado providencial de suas causas
    • Altermotivos são progênie de naturezas automotivas
    • Coisas que subsistem no tempo (todo ou parte) são efeitos de naturezas eternas (o que sempre é causa do que às vezes existe)
    • Gêneros divinos e unificais dão subsistência a naturezas multiplicadas, precedem-nas em existência
    • Nenhuma essência ou multidão de potências que não tenha sua geração a partir do Um
  • Participação na providência das causas precedentes
    • Vivificados pelos deuses psíquicos, circulando segundo períodos temporais
    • Participando de identidade e condição estável de formas dos deuses intelectuais
    • Recebendo presença de união, medida e distribuição do bem dos primeiros Deuses
  • Conhecimento divino do dever providencial
    • Necessidade: Deuses saberem que cuidado providencial de sua progênie lhes é natural, não apenas dar subsistência, vida, essência e união, mas compreender previamente a causa primária dos bens que contêm
    • Alternativa ilegítima: sendo Deuses, ignorarem o próprio e adequado
    • Ignorância do belo impossível para causas da beleza; do bom para hyparxis definida pela natureza do Bem
  • Consequências da ignorância (rejeitada)
    • Almas não governariam o universo segundo intelecto
    • Intelectos não carreados nas almas como em veículo
    • Unidades dos Deuses não compreenderiam conectivamente em si todo conhecimento
  • Posse de conhecimento, poder e vontade
    • Deuses não privados de conhecimento; pais, líderes e governantes de tudo
    • Pergunta: conhecendo a lei natural, cumprem-na, ou por imbecilidade privados de atenção providencial?
    • Refutação da falta de poder:
      • Causa desta falta? Não movem coisas externamente, outras coisas não causas da essência; assumem governo do que produziram; governam tudo como de popa, fornecendo ser, contendo medidas da vida, distribuindo energias
      • Incapazes de prover a todas as coisas de uma vez? Negligenciam partes? Cuidam de maiores, negligenciam menores? Ou o inverso?
    • Argumento da prioridade causal: atribuir produção de todas as coisas (maior) e negar atenção providencial (menor) é inconsistente; poder que produz maior coisa deve dispor adequadamente o menor
    • Argumento da similaridade: o mais aliado e similar a algo é mais apropriadamente disposto para participação do bem conferido
  • Impossibilidade de limitação da presença divina
    • O que pode restringir presença dos Deuses de permear a todas as coisas? O que impedir sua energia não invejosa e exuberante?
    • Quem pode efetuar coisas maiores, incapaz de governar menores? Quem produz essência até das menores coisas, não senhor de sua perfeição por privação de poder?
    • Estas noções hostis às concepções naturais
  • Conclusão tríplice sobre os Deuses
    • Conhecem o adequado e apropriado
    • Possuem poder adaptado à perfeição de sua natureza e ao governo de todas as coisas
    • Têm vontade providencial (junto com conhecimento e poder)
      • Se soubessem e pudessem, mas não quisessem prover, seriam indigentes de bondade, pereceria exuberância não invejosa, abolir-se-ia hyparxis pela qual são essencializados
      • Ser dos Deuses definido pelo Bem; prover coisas de natureza sujeita é conferir-lhes certo bem
      • Privar Deuses de providência é privá-los de bondade; subverter bondade é subverter hyparxis
  • Necessidade lógica da bondade e providência divinas
    • Consequente ao ser dos Deuses: bons segundo toda virtude
    • Consequente a isto: não se retiram da atenção providencial a naturezas secundárias por indolência, imbecilidade ou ignorância
    • Consequente também: posse de conhecimento excelente, poder não poluído, vontade não invejosa e exuberante
    • Conclusão: proveem a todas as coisas, omitindo nada requerido ao fornecimento do bem
  • Modo transcendente e não laborioso da providência divina
    • Não extensão de providência ocupada ou laboriosa; transcendência isenta estabelecida longe de dificuldade mortal
    • Bem-aventurança não se deixa contaminar com dificuldade de administração; vida dos bons homens acompanhada de facilidade, isenta de molestação e dor
    • Trabalhos e molestação surgem de impedimentos da matéria
  • Definição do modo da providência dos Deuses
    • Espontânea, não poluída, imaterial, inefável
    • Não governam por investigação do adequado, exploração do bem por raciocínios ambíguos, ou olhar externo seguindo efeitos como homens
    • Preassumem em si medidas de todas as coisas, produzem essência de tudo de si, olham a si mesmos, conduzem e aperfeiçoam todas as coisas em caminho silencioso, por seu próprio ser, preenchendo-as com bem
  • Síntese de produção e vontade
    • Não produzem de modo similar à natureza (energizando apenas por ser, sem escolha deliberada)
    • Nem como almas parciais (em conjunção com vontade, privadas de produção segundo essência)
    • Contratam ambas em uma união: querem coisas que podem efetuar por seu ser; por sua essência sendo capazes de produzir tudo, contêm causa da produção em vontade não invejosa e exuberante
  • Ausência de labor na providência
    • Por que energia ocupada, dificuldade ou castigo de Íxion se realizaria providência de almas totais, essências intelectuais ou dos próprios Deuses?
    • A menos que se diga que impartir bem em qualquer aspecto seja laborioso para os Deuses
    • O que é segundo natureza não é laborioso para nada (ex.: fogo calor, neve frio, corpos energizam segundo poderes próprios)
    • Prior a corpos: naturezas não laboriosas em nutrir, gerar, aumentar (obras das naturezas)
    • Prior a estas: almas não laboriosas; produzem energias de escolha deliberada, de seu ser, causas de movimentos por mera presença
    • Se comunicação do bem é segundo natureza para Deuses, providência também o é; realizada com facilidade, por seu ser apenas
  • Prerrogativa ilustre da teologia platônica
    • Nem essência isenta dos Deuses convertida a naturezas secundárias por cuidado providencial
    • Nem presença providencial com todas as coisas diminuída por transcender todas as coisas com pureza indefectível
    • Atribui-lhes simultaneamente:
      • Subsistência separada, não misturada com qualquer natureza subordinada
      • Extensão a todas as coisas, cuidado e adornamento de sua progênie
    • Modo de permear todas as coisas:
      • Não corpóreo (como luz através do ar)
      • Não divisível ao redor de corpos (como na natureza)
      • Não convertido a naturezas subordinadas (como alma parcial)
      • Separado do corpo, sem conversão a ele, imaterial, não misturado, não restringido, uniforme, primário, isento
  • Distinção do modo de providência segundo cada ordem divina
    • Providência da alma de um modo, do intelecto de outro
    • Providência da divindade anterior ao intelecto exercida segundo transcendência de intelecto e alma
    • Providência dos Deuses sublunares diferente da dos divinos celestes
    • Deuses além do mundo: muitas ordens, modo de providência diferente segundo cada uma

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