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I-6

Resumo de Saffrey e Westerink

Capítulo 6. Objeção prejudicial.

É preciso prevenir uma objeção que consiste em dizer que não se tem o direito de considerar a teologia de Platão como disseminada em vários escritos para reunir suas partes. De fato, aceitar essa objeção significa que certas partes da teologia podem ser relacionadas a tal ou tal diálogo de Platão, mas não a teologia como tal a um tratado determinado (p. 27.2-28.2).

Discurso dos objetantes: A) Vocês nos apresentam como teologia de Platão um conjunto de doutrinas recolhidas aqui e ali, o que não é uma ciência teológica no sentido estrito. B) Na realidade, foram os sucessores de Platão que realmente fizeram uma teologia. Em Platão, encontramos física e ética, mas não há uma filosofia primeira, exceto talvez nos mitos, mas a) eles são apenas da ordem do verossímil, e b) têm apenas um status adventício. Os mitos, de fato, não podem preencher a lacuna de um tratado formal de teologia.

Eles estão lá apenas para ilustrar cada vez o objetivo principal do diálogo e, além disso, não trazem um conhecimento racional, mas apenas uma emoção. Assim, os mitos, como as doutrinas teológicas parciais, estão subordinados a considerações físicas ou morais, por exemplo, no Filebo, no Timeu ou no Fedro (p. 28.3-30.10).

Portanto, se não há em Platão um tratado formal de teologia, a ciência teológica não pode de forma alguma pretender ocupar o primeiro lugar no projeto filosófico platônico (p. 30.11 - 17).


Resumo da tradução de Thomas Taylor

  • Formulação de uma objeção fundamental à abordagem da teologia platônica como coleção de fragmentos dispersos
  • Crítica central: não exibição adequada da teologia dispersa de Platão, mas amontoamento de particulares de diferentes diálogos
  • Acusação de criar uma mistura a partir de múltiplas fontes, em vez de derivar tudo de uma única fonte originária
  • Consequência indesejável: referência de dogmas diferentes a tratados diferentes de Platão, sem uma doutrina precedente e unificada sobre os Theoi (Deuses)
  • Desafios específicos levantados pela objeção quanto à falta de um todo sistemático
    • Ausência de um diálogo que apresente uma processão toda-perfeita e inteira dos gêneros divinos e sua coordenação mútua
    • Comparação a quem tenta obter um todo a partir de partes, carecendo de um todo anterior às partes
    • Tentativa de tecer o perfeito a partir de coisas imperfeitas, invertendo a relação causal (o imperfeito deveria ter sua primeira causa no perfeito)
    • Exemplos concretos da fragmentação:
      • Timeu ensina a teoria dos gêneros inteligíveis
      • Fedro apresenta um relato metódico das primeiras ordens intelectuais
      • Pergunta crítica: Onde está a coordenação dos intelectuais com os inteligíveis? Qual a geração das naturezas segundas a partir das primeiras?
    • Impossibilidade alegada de evidenciar:
      • O modo como a progressão das ordens divinas ocorre a partir do único princípio de todas as coisas
      • Como, nas gerações dos Theoi (Deuses), as ordens entre o Um e o número todo-perfeito são preenchidas
  • Questionamento da venerabilidade e autenticidade da ciência teológica proposta
    • Absurdo alegado de chamar de platônicos dogmas coletados de muitos lugares e introduzidos de nomes estrangeiros à filosofia de Platão
    • Incapacidade de evidenciar uma verdade inteira e única sobre naturezas divinas
    • Sugestão de que pessoas posteriores a Platão teriam entregue uma forma perfeita de teologia em seus escritos
    • Reconhecimento da capacidade de produzir teorias inteiras em outros domínios a partir de diálogos únicos:
      • Teoria inteira sobre a natureza a partir do Timeu
      • Dogmas mais belos sobre os costumes (éthos) a partir da República ou das Leis, tendendo a uma forma de filosofia
    • Acusação específica: negligência do tratado de Platão que contém todo o bem da filosofia primeira e pode ser chamado de cume de toda a teoria
    • Risco: privação do conhecimento mais perfeito dos seres, a menos que se recorra a uma infatuada vanglória baseada em ficções fábulas
    • Limitação das fábulas: sua análise abunda em verossímil (eikos), não em demonstrativo (apodeiktikon)
  • Status adventício e instrumental das narrativas teológicas nos diálogos
    • Entrega de coisas desse tipo apenas adventiciamente nos diálogos platônicos
    • Exemplos de inserção de fábulas para o bem de outros fins:
      • Fábula no Protágoras inserida por causa da ciência política e das demonstrações sobre ela
      • Fábula na República inserida por causa da justiça (dikaiosyne)
      • Fábula no Górgias inserida por causa da temperança (sophrosyne)
    • Propósito declarado de Platão: combinar narrativas fabulosas com investigações de dogmas éticos não por causa das fábulas, mas por causa do desígnio líder (hegemon skopos)
    • Finalidade pedagógica dupla:
      • Exercitar a parte intelectual da alma através de razões contendentes (logoi)
      • Permitir que a parte divina da alma receba mais perfeitamente o conhecimento dos seres através de sua simpatia (sympatheia) com assuntos mais místicos
    • Diferença epistemológica entre modos de discurso:
      • Outros discursos: similares a quem é compelido à recepção da verdade
      • Fábulas: sofremos de modo inefável, chamamos à tona concepções não pervertidas, veneramos a informação mística que contêm
    • Justificativa de Timeu: produção dos gêneros divinos seguindo os inventores de fábulas como filhos dos Deuses, subscrevendo sua geração de naturezas secundárias a partir das primeiras, mesmo sem demonstração
    • Caráter deste tipo de discurso: não demonstrativo, mas entusiástico (entheastikos), inventado pelos antigos não por necessidade, mas por causa da persuasão (peitho), visando não mera disciplina, mas simpatia com as coisas mesmas
  • Extensão da crítica: causas da dispersão de dogmas teológicos
    • Alguns dogmas teológicos espalhados nos diálogos por causa de considerações éticas
    • Outros por causa de considerações físicas
    • Exemplos:
      • Filebo: discurso sobre o limite (peras) e o ilimitado (apeiron) por causa do prazer (hedone) e da vida segundo o intelecto
      • Timeu: discurso sobre os Theoi (Deuses) inteligíveis assumido por causa da fisiologia (physiologia) proposta
        • Necessidade consequente: conhecer imagens a partir de paradigmas, paradigmas de coisas materiais serem imateriais, de sensíveis serem inteligíveis, de formas físicas serem separadas
      • Fedro: celebração do lugar supercelestial, da profundidade subcelestial e de todo gênero sob isso por causa da mania amorosa (eros mania), do modo da reminiscência das almas e de sua passagem daqui para lá
    • Princípio geral: o fim líder (teleuten hegemon) em toda parte é ou físico ou político, enquanto as concepções sobre naturezas divinas ocorrem ou por causa da invenção (heuresis) ou da perfeição (teleiosis)
  • Formulação final da objeção como desafio à dignidade da empresa teológica
    • Pergunta retórica: Como tal teoria pode ser venerável, sobrenatural e digna de ser estudada além de tudo?
    • Alegação de que a abordagem carece de:
      • Capacidade de evidenciar o todo em si mesmo, o perfeito, o precedente nos escritos de Platão
      • Posse de um caráter espontâneo (não violento)
      • Ordem genuína (em vez de adventícia, como em um drama)
    • Conclusão da objeção: a proposta é destituída de todos esses atributos, sendo violenta e não espontânea

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